quando o amor é cego

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O que sei do amor, é que nada sei do amor para lá da aliciação, dos danos. Passa por mim sem que o veja, chama-me e esconde-se, espreita-me e esquiva-se, atira-me pedrinhas em forma de coração de toda e qualquer esquina. Sei isto e pouco mais do amor, já que não se dá a explicações. Não passa de uma criança mimada, amuada pelas fachadas, carente, que só quer folgar, escorregar espelhos de bocas e de cuspe. Uma provocação etérea, carnal, que me atinge a alma, penetra os poros, distorce a vista, espreme o coração. Queixo-me, é certo, mas não é de dor, é de amor, de adorar participar desta sedução cega, deste masoquismo adornado, desta liberdade intempestiva do usurpador pelas minhas ruas, tão caprichoso, tão sentido, tão enciumado, dado a desforras pelas sombras dos telhados, pelas frestas das vielas. O amor, uma brisa assim explodida das bermas, das árvores, do movimento imperceptível das coisas, rastejado, levitado, encouraçado de dentes e de lâminas, enquanto o diabo esfrega um olho, na ponta de uma faca, o silêncio, o pasmo, o delírio, as luzes…  zás!

Para entendê-lo – nunca se consegue -, é imperativo aceitá-lo exatamente como é, sem tirar nem pôr, sem contra-partidas, cauções, promessas sérias, desentendendo-o mas acreditando-o sempre, piamente, ajoelhados, humilhados se for preciso, mesmo quando desiste e parte. Só assim se entrega, damos por ele. Um inquietador o amor, um incendiário, uma vítima, um forasteiro, um conquistador, um traiçoeiro, um carrasco de nós mártires, sempre a acudir-lhe ao fogo de mangueira na mão, esgotados nesse desespero, suados, amedrontados em falhar. É que o amor ateia, propaga e extingue, encarrega-se de tudo sozinho, um delinquente solitário, eternamente perdoável na nossa míngua.

Só de falar nele, já me sinto exangue, cresce-me água na boca, uma nascente, uma cascata altíssima de línguas soltas e molhadas. Já lhe sinto o fogo, temo a incapacidade de atendê-lo atempadamente, esta vontade descontrolada no corpo de sair a correr em seu auxílio com a minha água! E ele, calculista – sabendo-me tonta, enfeitiçada, incendiada -, grita, agita-se todo, sanguinário no alto da serra cercado de labaredas, a agitar os braços, a sacudi-los de vento, de pássaros alvoraçados, a pele cáustica, estalada nos abetos, o coração latejado, a boca escancarada numa cratera estéril e faminta. E a doer-me a mim todas essas profundidades áridas e quentes, atoladas de achas nesta distância louca!

Espera amor, espera meu amor que eu vou. Vou agora mesmo antes que cresça um dilúvio e se extinga a vida!

E calço apressadamente as botas para prevenir os passos, descuidando a roupagem. Mas que importa a roupa se é para te salvar amor? Que importa ir assim desarranjada, despida para resgatar o mundo? Que importa o mundo sem ti?

O amor perdoa-me este descuido, essa súbita ansiedade, este desabrochar de palpitações, esta ameaça de enfarte, este sair a correr desacautelada. No fundo, acho que até tira prazer em ver-me assim, ansiosa e enrubescida, tropeçada. Não me aborreço com esta audácia, este abuso do amor em querer ver-me exposta. Faz parte dele este atrevimento – ser arrojado -, como eu ser ansiosa e tímida.

Arriscar-me a perdê-lo, nunca! Nunca, nem que possa acontecer. Não posso distanciar-me de acreditar na sua voz mélica, tão profunda, tão espraiada sobre todo o resto, tal chuva sobre a paisagem, uma nuvem baixa, um nevoeiro denso, um perfume húmido a flores, algas aquosas na orla salgada. O “depois” não interessa ao amor. O que mais lhe apraz é o “agora”! O amor chegado num grão de poeira, numa gota de orvalho, num fulgir no firmamento. Num átimo, de qualquer espaço, de qualquer jeito, de qualquer ansia – a sofreguidão, a alucinação, a submissão -, zás!

Pensar no amor, não dá margem a dúvidas, reflexões. Tão depressa me chama como me quer junto dele sem medir tempo ou distâncias. Não espera. Um grito, um hálito e lá vou impetuosa sem dilações. Seminua serra acima a acudi-lo de não saber aguardar por mim sem birras, ameaças – chantagear, ameaçar matar-me, morrer, atirar-se para o fundo de um poço, uma língua de prata agitada de espelhos, um revólver, uma faca, uma foice, um corte profundo no meu pescoço, a finitude.

Vou. Espera meu amor que eu vou.

É que, se demorar, hesitar, perde-lo-ei. Arderá vingativo o mundo num amuo, numa zanga infernal e nada mais fará sentido. De repente, tudo escurecerá nas sombras, todos os jardins mirrarão dentro das cores e dos aromas por culpa dessa demora. E choverá para sempre uma chuva ulcerada e fétida. Os lugares não mais os mesmos mas outros mais tristes dentro desses, enfadonhos, dolorosos, sangrados e anoitecidos, mesmo em dias soalheiros. Um luar frio, prolongado e húmido será a única estrela. O mundo para sempre cinzento dentro e fora das formas, das cores, do arrependimento.

Se ao contrário do atraso, antecipar-me, chegar antes do amor me esperar, perdê-lo-ei de achar-se surpreendido, desgostar dos encantos afiançados.

Esmorecido, entediado do meu arrojo, da minha insegurança, abandonar-me-á indiferente, sensaborão o morro ardido, antes de querer escutar-me ou aos meus segredos soterrados na cinza.

E agora amor, a minha água?

E agora, arrasto-me e ao coração ferido, comprometido, desfeito pela cidade a tentar resgatar-te ainda, redescobrir-te no rasto esbatido, na intermitência da chuva, das luzes, das sombras, dos jardins, das estátuas, das montras, do movimento, das vozes. Meu amor, tu, os teus ombros pousados nos ombros de alguém, a tua forma sobreposta noutros corpos, o teu cabelo a iludir-me ainda. E corro a agarrar-te, os meus braços, as minhas mãos, os meus dedos sôfregos atirados aos teus sinais. O meu ímpeto ao nada, de não seres tu afinal mas a minha vontade refletida, descontrolada sobre o teu fantasma. O amor extinto no despertar cruel em que te retiras, entras num autocarro, a tua expressão zangada sobre um rosto desconhecido. Teus olhos no vidro, teus gestos, tuas mãos, teu perfume ainda. Tua voz emaranhada numa mescla de conversas surdas.

E agora amor? Que faço? Arrasto-te à força para casa?

Agora amor, trago-te comigo mesmo contrariado, agarrado à cabeça sem que te veja, sem que te toque. E não adiantará pentear-me ou à tua imagem, esse movimento inconsciente pelo pente espelhado, o meu dedo diluído pela linha do lábio. Deitar-me-ei só, nesse tempo em que me assedias, sobes sorrateiro pela berma da cama, um gato famélico a enrolar-se no linho. E não dormirei todas as noites a procurar-te, a remexer-te na roupa, as tuas mãos enfiadas nas minhas a confundir-me os gestos no tecido. E fecharei os olhos e encostar-te-ás à sombra das cortinas a fumar um cigarro na calma silenciosa da noite, a desfiar a Lua pelo meu cansaço. E não te quedarás por aí amor, pelos telhados. Mal a cinza assente no soalho, deixarás tudo fora desarrumado e entrarás em mim pelo ouvido, a invadires-me o sono, às escâncaras a atrapalhares-me os sonhos.

Se dizem que o amor és cego… como se enganam! Cegos, somos nós, de te vermos e sentimos em todo o lado. Alegres ou tristes, descurarmos as promessas, o leite ao lume, de levar o cão à rua, a direção das coisas, o tempo que levamos a chegar, uma réstia de pasta dentífrica no rosto, qualquer peça de roupa do avesso.

Desajustados, uns palhaços, uns pierrots, uns heróis, uns mártires, uns homicidas – é o que somos -, cegos.

http://editorapapel.blogspot.pt/2015/07/quando-o-amor-e-cego-manuela-carneiro-5.html

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