laminária hyperborea

lumináriah

Os pescadores tinham os olhos afundados nas sombras. Pendiam lanternas das mãos no porto de Digi Otok. Porque seguravam as lanternas, tudo o que ficava para lá da luz era mais escuro, mergulhado no desconhecido como pés enterrados e frios. As rochas, pareciam barcos abalroados por ondas negras. Às vezes, pareciam erguer-se na orla formas humanas, mastros e velas desfraldadas, línguas líquidas, corpos lancetados atirados à Lua, braços e mãos e bocas e vísceras chibatadas de sal. Ascendiam velocíssimos, um segundo, mergulhavam como esteios nas escarpas aquosas. Outras vezes, sombras debruçavam-se na borda de barcos para vomitarem de dentro delas outras sombras, corpos borda fora que nunca mais regressavam. Os pescadores, resilientes, já estavam habituados a esse medo mas estremeciam sempre, oscilavam os olhos nervosos ao redor das luzes, desequilibravam os corpos no farelo de areia.

Numa dessas noites, os pescadores avistaram um barco, ou a forma dele, depois uma sombra arrastar-se custosamente na água. Era esguia e arqueada do peso de outra sombra derretida nos braços, que bem podia ser um corpo, uma rede ou um remo quebrado, que bem podia ser uma posidónia arrastada na corrente, que bem podia ser uma sereia ou um polvo se houvesse ali sereias, polvos daquele tamanho, ou então uma lona, ou então uma vela, ou ainda uma montanha distante a parecer-lhes levada em braços, ou nada disso e apenas um vulto empolado de trevas. Assustados, quedaram-se, aguçaram os olhos, ergueram os braços nas lanternas. A noite, convulsa – respondeu-lhes ou confundiu-os -, vomitou do céu um punhado de fulgências, pirilampos talvez, ou alminhas santas, ou simplesmente estrelas esfareladas. O que quer que tenha sido, caiu, afundou-se nas entranhas espumadas das ondas e sumiu. Os pescadores tremeram, gemeram, mas não disseram nada, de desconhecerem palavras para as trevas e para as luzes, recearem ofender o desconhecido, importunar a Deus com súplicas mal-entendidas.

Odeio a última viagem como odeio a primeira, tanto quanto os astecas sanguinários – disse Ingeborg ao mesmo tempo que fez o gesto de retirar o coração do peito e enfiá-lo na boca de Hans. Tinha na mão um nenúfar em forma de coágulo que escondeu depressa debaixo do braço.

Depois, fizeram amor e o barco balançou todos os movimentos dos corpos, a Lua por detrás da cabeça de Hans como um eclipse, um clarão intermitente, uma promessa de tempestade num dia ensanguentado sobre a obsidiana.

Jura pelas tempestades – pediu Ingeborg com as mãos apertadas no cabelo do amante enquanto sacudia o ventre.

Juro.

Jura pelas árvores mais altas.

Hans fixou o olhar nos cabelos de Ingeborg. Com eles desenhou dentro dos olhos uma Chorda Filum, uma floresta imóvel e silenciosa. Só depois disse:

– Juro.

Jura pela eternidade do fundo do mar, pelo passado de tudo o que não sabemos, não vivemos, pelo coração do menino alga do Báltico – e interrompeu, para tossir uma Porphyra Umbilicalis e pousá-la sobre a barriga. – Jura para sempre, sobre o Adriático!

Juro – repetiu Hans, a pensar em Ingeborg, em como era bela, como guardava dentro dela todas as algas do livro “Alguns Animais e Plantas do Litoral Europeu”.

A posidónia, nunca, nunca tem o cabelo emaranhado. Sob a superfície da água, existe um nervosismo constante, uma espécie de pente contínuo, oleoso, aquático, que não permite que este se emaranhe. Assim o pente oceânico movimenta-se em todos os sentidos, acaricia a posidónia ao limite da seda, ao limite da harmonia e do brilho, sem que esta se esquive, desista da involuntária perfeição. O mesmo não acontece com a cabeleira de Ingeborg em permanente desalinho. Ainda que Hans se esforçasse ao limite da dor, passasse continuadamente as mãos doces e molhadas pela cabeça rendida de Ingeborg – aliasse a esse movimento toda a humidade da boca, todo o tiritar da língua, das entranhas e do desejo -, jamais os cabelos de Ingeborg seriam capazes de semelhante flostria, da liberdade descomprometida e pura da instintiva posidónia. Assim, o mar mantém arrumado e límpido o fundo, liberto do entendimento, do medo e do contágio. Assim Ingeborg mantém a alma subjugada, a carne sangrada e turva, a consciência sôfrega de querer unir-se a essa ideia ordenada, essa intimidade confiável do fim.

As estrelas-do-céu são uma ilusão – disse Ingeborg debruçada sobre a borda do barco antes de bolsar uma rosa. – Não existem… por isso odeio-as… como odeio tudo o que não existe mas parece existir – tocou as ondas que tentavam subir a bordo. – Gosto da água, gosto das estrelas-do-mar. Dessas sim, porque são reais, como as tuas mãos são reais – voltou-se para puxar pelas mãos de Hans. – Posso entrelaçar nelas os meus dedos, assim, sem que me fujam, deixem escapar caso pretenda desistir. E… também gosto das estrelas-da-areia – olhou em direção à praia.

– Não são estrelas, Ingeborg. São pescadores com lanternas na mão.

– É o mesmo. Gosto deles, dos pescadores-estrela-de-lanternas-na-mão e das estrelas-do-mar, mais do que o céu brilhante de tudo o que já passou e não tem retorno.

– As tuas pernas parecem dois remos. Se pegar nos teus tornozelos, assim – Hans apertou com força as duas mãos nos pés de Ingeborg –, posso rodar o barco e regressar.

– Como podes pegar neles e remar até ao fundo, levar-me a ver as laminárias, como prometeste.

– Eu nunca matei uma mulher, Ingeborg, sabes isso.

– Mas escreveste muitos livros, o que é o mesmo, ou pior.

Hans nunca pensou que a profundidade tivesse luz àquela hora, que o sal não lhe ardesse nos olhos, o cabelo de Ingeborg fosse tão comprido. Depois, apercebeu-se que a luz não provinha do fundo, mas antes que chovia da superfície. E não era feita de peixes, nem de estrelas-do-mar, nem de náufragos à procura do caminho de regresso a casa. Eram antes uma espécie de achas, que à medida que avançavam na água se extinguiam. Ingeborg olhou e arregalou os olhos, soltou uma das mãos para apontar para a superfície. Hans olhou para cima mas não conseguiu entender o que queria dizer, porque de repente um jardim de buganvílias rebentou-lhe da boca e espalhou-se como purpurina entre as laminárias. Ingeborg, antes de afrouxar as mãos, sorriu um fio de sangue como uma fonte sem palavras na floresta silenciosa. Aconteceu nesse tempo em que a areia convulsa, rodou uma ventoinha invisível nas cerdas da posidónia, surgiram círculos de areia que sugaram as achas já extintas de luz, algumas conchas e peixes desprecavidos. Se Hans tivesse soltado as mãos de Ingeborg, também ela teria desaparecido nessa chuva com os jardins que levava dentro.

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