desova

Na profundidade do lago, ela amava, por isso gritava o que sofria, vergastava o corpo, sacudia os braços, atirava os olhos ávidos para fora, soltava-os em direcção ao infinito – salientes, esbugalhados, polvorosos, explodidos das córneas como bolhas de mercúrio flutuadas das pálpebras. Juntos, trespassavam a ofuscação da água, voavam os caminhos nas órbitas dos morcegos, dos potros extraviados, debruavam o luar pela ramagem das árvores, rolavam as cascas, as raízes, as pedras, os atalhos, as ruínas – tudo -, ascendiam como luas as paredes, as escadas, até à janela iluminada do quarto dele, onde dependurados, repousavam noturnos as asas das mariposas.

Porque era assim, e simplesmente assim era o amor, essa carência impelia e caramunhava.

Então, ela profunda, distante e cega, percebia no movimento da água o brilho do vidro dessa janela, o clarão; no assobio da corrente aquática, os passos dele cambaleados de insónia pelo soalho, as mãos nervosas transpiradas de tinta e pasta de papel.

“Parece um polvo, com as ventosas atiradas sem destino…” – pensava ela, porque só sabia de bichos e de água e de amor.

Nesse instante em que meditava, ele estremecia – sentia o pensamento dela -, sacudia os braços no ar, as folhas como asas quebradas, barbatanas dessecadas. Ela chorava então, o tempo dele percebê-la, colar as mãos suadas no vidro, escorregá-las pela janela de pena, deslizá-las amargurado e só, esse instante dela, vagueado de mãos trémulas pelo corpo, perfuradas de carne. Ele, a senti-la, a apagar a luz, a escancarar a janela; ofegante, a contemplar a distância, a nudez sob a água remexida das suas mãos distantes sangradas nas folhas. Então, ela sabia, debatia-se na água com a precisão dos peixes na desova, enquanto ele inspirava, respirava o ar da boca dela, mergulhava o olhar cerrado no vaso alagado no parapeito, enfiava-lhe a mão na lama e mexia-o de trevos, o  tempo que ela sentia as mãos dele, livres pela corrente das veias.

“… jorrava, uma fonte de sangue que sustentava o limbo, escorregava a correnteza pelo sonho, crescia-o até à superfície, levitado de pele, escamas, cabelo pelas raízes entrançadas, seiva pelos vasos dilatados. Adoro-te – gritava, gritava profunda -, e amava, e explodia tudo, dentro e fora dela. Cresciam caminhos na paisagem e lagos. Desovavam os peixes nos vasos. Choviam caranguejos na janela.”

Depois, saciada, abandonava o corpo dorido sobre o coral, deixava os bichos lamber-lhe a pele, pentear-lhe o cabelo calmamente, cobri-la com um vestido de lama. Um vestido do tamanho do peito, do lago, da paixão – veludo e terra que ela escorregava na pele como musgo; trajada, deslizava a profundidade em círculos contínuos, arrastados de felicidade no encalço de medusas, crustáceos e peixes.

“… há um universo de estrelas submerso, onde seres detonam astros e brilham elos de luz. Na escuridão mais profunda das lesmas, é onde o brilho mais intenso se alcança, o fulgor mais cristalino se propaga.”

Então, ele suspirava, reacendia a luz, afugentava os bichos da água, sentava-se nu como um polvo à escrivaninha, preparado para registar sem parar, sem omitir, as voltas que ela dava completas no lago, no tempo que os peixes lhe lambiam a pele, ela ainda estremecia o ápice da língua nos poros. Ele, qualquer espécie de escama na boca que tinha subitamente de dizer, cravada na língua, entalada num dente. Ele, que era o peixe e ela que era a lama, e o amor as palavras aguadas que brotavam da boca, gotejavam de saliva e letras sobre as folhas que cresciam frases, perfuravam textos, sangravam.

Estendida, ela adormecia finalmente o corpo, descansava o êxtase no tempo dele esculpir uma insónia inteira de palavras.

“A Lua, era finalmente um aquário de prata trespassado de peixes no tempo livre dos olhos, da memória. A duração pestanejada da corrente, antes do último vislumbre, o sonho afogado no sono, ela ainda acordada a ver, a sentir esse segundo apenas, o gozo do peixe parado na barriga prateada do astro, feliz de saber-se apenas, verdadeiro e livre, e amado.”

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