Maus

Quando levo demasiado tempo a escrever em pensamento, cresço mentalmente uma infinidade de estados, dialetos, sensibilidades, que jamais conseguirei escrever, traduzir em palavras, frases entendíveis, esquissos, símbolos. Falo de Maus e do mundo de Maus, que involuntariamente descobertos, explorados em mim, cresceram, cresceram, agigantaram-se para logo em seguida  se distanciarem, transformados em matéria imprecisa, escapulidos à minha capacidade de governá-los. Neste preciso momento, tudo é de facto maior para que consiga perceber, decifrar, narrar, sequer esboçar. Dentro e fora do meu juízo – que é pouco, admito -, desorganizei-me, e Maus e o seu mundo, evadiram-se ao meu controlo. Sei agora esse mundo como um desertor, autónomo mas prisioneiro de um código desconhecido, juntamente com Maus – entidade que me possui, arrasta, condena, executa -, simultaneamente minha presa e meu algoz. De colonizadora, faço-me ou entendo-me assim, vítima de mim mesma, distorção criadora da indiscutível conceção. E isto, não é para ser compreendido por alguém, como o universo, o tempo,  a transmutação da matéria, não estão para este género de inquirições ou classificações. O mundo de Maus, e Maus, são desta índole, ponto – desaparecerão apenas quando deles conseguir libertar-me, trocando-os por outra memória, plano, condição, universo, certa de que qualquer sequela desta passagem, permanecerá em mim inolvidável,  por tudo o que nela investi, por tudo o que nela participou.

“Existe um deserto a perder de vista sob um céu enlouquecido. Existem cinco tamareiras sob o Sol tórrido. Existe um aglomerado de rochedos cinzentos, pesarosos e escaldantes. Existe uma gruta quente e húmida, irrespirável, que se prolonga até onde o desespero leva. E não existe mais nada no mundo de Maus, para além disto e ela – nem vento, nem água, nem bichos, nem som. Maus – a mulher -, e o mundo – única, corpulenta, musculada, nua, transpirada de sal. E é nela, por onde me alastro, escorro de pele os meus ódios, de sangue os meus medos. Maus, com os cabelos desgrenhados como diabos-de-poeira, os olhos foscos como cocos, as narinas dilatadas como báratros. Maus, e as suas mãos grandes, grossas e abertas como ramos, para agarrar dali, rasgar de mim o impossível.”

Quando Maus corre nua e enraivecida pelo deserto, fá-lo sempre pelo mesmo percurso. Porque ela é a imagem do meu desejo estanque que corre, quando o espaço detém o tempo em que a penso, vejo monstruosa e queda sobre a rocha, depois alucinada e histérica a morder o corpo, depois a deixar-se escorregar leve e inevitável – a magnitude do meu desejo nela -, dela o sentido irremediável do chão.

Se fecho  os olhos agora, assim apertados, vejo Maus na nitidez da minha vontade em revê-la. Está sentada ainda, corcovada sobre a pedra. Tem os braços a rodear as pernas recolhidas, o peito grande e nu espremido sobre as coxas. Tem  a boca aberta, pousada sobre a pele seca dos joelhos – morde-os até sangrarem.  Deita agora o corpo sobre a rocha – o gesto de uma cruz afogueada -, inspira o estigma que reside nela. E senta-se de novo para olhar a provocação das tamareiras. Sei, estou convicta, de ser este o instante  em que se deixa escorregar, cair fortemente sobre a areia e iniciar a corrida. Assim é – escorrega, bate no chão e corre como louca, avança pelo deserto silencioso – os braços sacudidos como portas sem fecho, as pernas como árvores desenraizadas. Chega, embate com o peito aberto no trono, espreme a árvore nas mãos, encaixa os pés, lança os braços, o corpo para cima – um lanço, outro e outro – três ou quatro, ao todo. E já está escarrapachada no topo da ramagem – Maus, a olhar a distância, apenas para ter o prazer de saber que esse longe existe e dizer-mo, ainda que fique apenas e eternamente essa lonjura presa nos seus olhos, eu a entender dentro dela a possibilidade desse deserto sem ruído, sem sombra, sem água, apenas assim, imenso, parado e escaldante, torturador dentro da minha memória.

E, não sei por que são cinco as tamareiras, e não sei por que são cinco os rochedos, não sei por que é um o  túnel, por que é uma a mulher. Ninguém mo disse, nem ela. Deduzo que seja porque são cinco os dedos das mãos. Não me ocorre mais nada. Cinco rochedos, cinco dedos para trilhar, esperar, suportar, demorar, entender. Cinco tamareiras para erguer, correr, subir,  sentir e suspeitar. Uma mulher para cegar na luz a morte, um túnel para iluminar na dor a vida.

Se fecho novamente os olhos para encontrar Maus, sinto-a, aproximar-se pesada, ofegante – uma montanha aterrada sobre uma árvore. Porque Maus, fecha os olhos e fica mais dolorosa comigo dentro, uma cordilheira encastelada. Chamo-a, escuto-a chamar dentro de si um mundo íntimo, só seu. Talvez um mundo que tenha rios e lagos e peixes e vento e amor, e tudo mais que Maus não sabe que existe mas sente que carece. Um mundo verde e doce, onde é leve e fresca, e os braços distendem como asas, e o céu é respirável e deslizante e livre. Um mundo com outro nome descoberto por ela.

Talvez por tudo isto, pese ainda mais este meu mundo, seja mais penoso viver nele, de ser o peso contido de tantos outros, para que eu sobreviva apenas de um esgar, a sombra intermitente de um deles.

Distraí-me, e Maus já não está sobre a tamareira. Já não está a descer o tronco, já não está a correr, já não está sequer visível no deserto, sequer o vulto dela na boca da caverna. Arredia ao meu desespero, perfurou o mundo e está bem mais dentro, mais fundo e mais perto – intocável, inacessível, louca. O corpo a arder o sal, a sangrar a corrida, essa distância enorme de escuridão irrespirável, esbarrada de corpo, de sendas e de rochas. Senta-se agora no chão a lamber o corpo. Ficará assim o tempo que for preciso, até o sangue queimar, a pele latejar na língua, suster na medula o medo.

Assim que ela deixar de lamber as feridas, para em seguida empanturrar-se de terra, tentar soterrar dentro de mim a incerteza de que existo, a minha culpa no sofrimento dela, direi o quanto me entristeço e sofro, de querer também morrer-me dentro da memória triste e cruel de alguém, que um dia qualquer, por acaso ou distracção, aconteceu pensar-me.

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