refluxo

admin-ajaxAlgumas vezes regresso forçosamente aos mundos por onde já passei. Repentina, como se depois de uma longa caminhada, a meia distância ou para lá dela, subitamente fosse abalroada e despertasse, percecionasse uma ligeireza, leveza em mim, qualquer coisa efêmera, prevaricadora, infinita, esquecida num lugar desses largado para trás. Tenho forçosamente de voltar, retroceder. E retrocedo, como quando esqueço o casaco e o guarda-chuva e de repente um frio infernal, uma tromba de água. Eu, inopinadamente humilhada, despojada, despida como nos sonhos em que vergonhosamente me afrontam fantasmas lavajados, olham-me, querem tocar-me, às vezes tocam e lambem e arrepio-me ao ponto de despertar suada, sacudida, eclodida noutro espaço ainda mais aterrador de ser repetidamente o mesmo e ainda assim desconhecido. Porque em qualquer lugar careço de tempo, energia para escapar, covil que me recolha e dissimule. Ainda que fosse capaz desse feito, no átimo descortinado do caos capaz desse abrigo, achar-me-ia descalça sobre uma avenida de vidros, ou então à deriva no mar sobre uma jangada de farpas, cercada de bestas marinhas, desarmada de vento, amputada e desprovida de orientação. Sucumbiria, claro, como sucumbo sempre, emergem e soterram-se os mortos. Que mais poderia senão vergar-me ao sonho? Acordar para perceber afinal que estou a salvo e que essa condição é ainda mais aterradora, de já ter morrido e despertado sob o peso húmido e gelado de uma lápide suspensa no vazio, prostrada sob um baloiço sem lanço. É assim triste, garanto-vos, deplorável, sem mãos, pesaroso ficar, pesaroso voltar, lastimoso prosseguir. Um exercício inútil em qualquer dos casos. Qualquer destes sem rumo na deslocação, na ilusão de que ainda pertenço, ajo, influo, sou real num lugar que em verdade sequer existe.

Existem muitos mundos, tantos quantos os nossos medos, os nossos anseios, a nossa incapacidade de prescindirmos deles. Como tal, somos inventores e viajantes, eternos foragidos, usurpadores de entidades, carrascos de nós mesmos. Frente a um espelho, imaginamos que descarnamos lugares e nos conhecemos, quando nus, continuamente nos entediamos, violamos o próprio reflexo, sangramos eternamente esse remorso, submetemo-nos impávidos a uma exclusiva e sumptuosa habilidade de tortura. Sofremos, mas não existimos. Nunca existiremos.

Por toda esta questão vital que sequer subsiste, em todas as vezes que caminho, inesperadamente me detenho. Suspendo os passos para debruçar-me sobre uma pedra, um sardão, uma ave, um peixe, uma partícula e descobrir um mundo, redescobrir outro por onde já passei, exatamente ali, quedo, no mesmo lugar, na mesma órbita, como se me esperasse, previsse o meu retorno, graviticamente me culpasse dessa atração. Iludo-me, sei, usufruo desse refluxo para rever-me, reencontrar-me no reflexo do que já fui, sou ainda, porventura serei. E tudo isto é descabido e vago e a vacuidade a presunção de nada como tudo em mim.

Sento-me sob a árvore, sob as gotas de sol, para que outro braço me resgate para o esquecimento. Tenho de fechar os olhos e olhar bem dentro, fundo, morder o lábio, até sentir nele as garras da ave, doer-me o limite de querer olhar-me de fora sob a escuridão das asas. Como se nada tivesse a ver com o que sinto, o fio de sangue escorrido da boca, deslizado pelo pescoço, uma anilha no peito, um anzol na coxa, no ventre, gotejado no chão para germinar uma árvore que ainda não sei, mas cuja semente já existe, para que um dia se voltar a esse mesmo lugar, não o reconheça, de ser novamente outra pessoa, como agora em que pensando nisto, temo que tenha aterrado num lugar diferente. Outro que não este, que não aquele onde um dia me cruzei com o pássaro azul. Daí que não o veja, de não ser aqui o lugar em que estou, de imaginar dele esse meu espaço, este desfasamento.

Regresso ao mundo do pássaro azul. Um regresso que pressupõe relembrar, uma regressão que pressupõe resgatar. E relembro tudo, como se ao invés de recuar, o passado me alcançasse na velocidade da própria vontade. Permanecesse parada a congeminar uma deslocação. Esse lugar o mesmo, como um espaço parado no tempo, ainda que o pássaro ausente da base da árvore nada mais que uma memória saqueada. Terá certamente fugido assustado de não mais reconhecer-me, usurpadora do seu sossego. Esse pássaro que um dia vi sem que me visse, que agora certamente me espia sem que o veja. O futuro violento e precavido, refletido no passado, é isso, uma existência simultânea, no entanto interdita. Assim é o pássaro puxado por um braço intemporal para um lugar desconhecido. Assim tem ele de ausentar-se para que eu o invada. Assim somos deuses inaptos da criação a operar na cegueira a matéria volátil que desconhecemos. Assim vamos subsistindo, iludidos e fátuos.

Na ambiguidade, aproximo-me, mordo o lábio até à insensibilidade da carne, para que a árvore me doa e dessa semente cresça, rebente do peso o corpo devagarinho, levite-o e me desloque da terra para esse lugar. A árvore, já a meio do céu e eu quase perdida nos ramos. A árvore já na estratosfera e os cabelos uma teia na galáxia. A árvore com o mundo pousado num galho e a asfixia a escorregá-lo da unha.

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