Haquaragach, o homem estranho

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O homem que assalta guarda-chuvas é muito rápido, quase instantâneo. Tem nos olhos uma velocidade verde, a volatilidade da luz, o desembaraçamento das árvores no cabelo, a instantaneidade da natureza nos gestos – é instintivo, diligente entre reflexos e pestanejares. Impossível descortiná-lo antes ou depois da vontade, da usurpação. Impossível detê-lo entre, dentro do espasmo. É um foragido, é um exilado, um espectro, um demónio ou um anjo desgarrado do Éden, desgarrado da Terra – famélico vingador da morte e da vida, é um benfeitor, um missionário alienígena. Gosto dele, nutro-lhe um amor quando chove, uma saudade solar quando escasseia.

Um guarda-chuva grande, pequeno, médio, enfezado, empertigado, simpático, infantil, tímido – umas gotículas – e ele.

Um guarda-chuva preto, encarnado, florido, axadrezado, sarapintado, colorido, baço, áspero, transparente, opaco, arco-íris – uma provocação molhada – e ele.

Haquaragach, o salteador de guarda-chuvas dá de graça o tempo. Está e não está, volta a estar e a não estar e a estar – intermitente, frívolo, apaixonado -, por instantes apenas como a natureza indecisa a decidir sobre si mesma – arrebatado, espontâneo, livre.

Talvez seja a água o seu fascínio, a humidade, ou o brilho, ou a cor, o reflexo, o convexo, o bojo dilatado, a provocação dos ângulos embebidos, a intimação das espadas, os esgares indignados na inquietação dos presenteados.

Talvez seja toda esta mutação que opera e contempla estampada nos rostos o fundamento primordial, a semeadura inevitável da sua passagem, o alimento da estação que move.

Haquaragach, anda às estaladas ao mundo mas ninguém acorda e continua a chover.

Num relance de pensamento, de vento, de nuvem, de água, a língua de Haquaragach surge do nada numa rabanada de vento, desce sobre os mastros, enrola-se nas velas recolhidas – um sopro, um hálito, um remoinho, uma onda lambida e uma nave desancorada.

Posso estar debruçada no convés de um navio, quando Haquaragach passa na espuma de uma onda. Fecho os olhos e lambe-me a cara, escangalha-me o cabelo com a ponta do guarda-chuva. Depois, faz chover de repente como se chorasse uma dor inesperada, ao ponto da língua rebentada num lábio da onda prolongar-se no ar trémula, agridoce escorregar-me o braço, a mão, encaracolar-se nos dedos até um bafo quente, evaporado de salitre, lascar a aresta duma unha e doer-me.

Posso estar sentada na dobra de um planalto e Haquaragach de repente chegado numa nuvem de hematomas a esvoaçar as asas de um pássaro. O meu guarda-chuva espetado na areia, o meu guarda-chuva atravessado de firmamento, o meu guarda-chuva levado sob um voo imperceptível. E a língua de Haquaragach a despedir-se como uma mão ensanguentada sobre o joelho. E um arrepio, e uma enxurrada enorme comigo dentro, levada na derrocada, assediada no cone de água e limo.

Posso estar sentada numa esplanada e ele súbito no reflexo dum copo, duma montra, na conversa misturada duma chávena, abafada e voada num guardanapo, pingada na testa. E depois apenas o vazio do guarda-chuva e uma multidão de costas e de risos na chuva.

Nos dias asininos, que são aqueles em que não chove, subo às copas das árvores.
Haquaragach, existe com a rapidez dos símios – há – a velocidade que passa o nome; – quara – que galga a pedra; – agach – que sopra o vento.

Haquaragach:
Há (v) = quara (∆s) / agach (∆t)

Nos dias asininos, Haquaragach abandona a cidade e deambula pela floresta a colocar guarda-chuvas verdes nas copas das sequoias mais altas. Há pássaros que fazem ninhos neles, macacas que os esventram, vestem saias de camuflado e vagueiam embelezadas de ganchos platinados e bengalas pontudas pelas alturas verdes a tentear os medos, a equilibrar a incerteza de o verem chegar, eclodir a qualquer instante da asa rasgada de uma nuvem.

Haquaragach, não tem relógio e por isso tem sempre tempo para aparecer. Além disso, quando está inspirado e surge de guarda-chuvas em punho, exaltado explica que: – Há sempre tempo para as coisas que não carecem de horas, como comer, foder e fazer chover.

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