visitador

 

fundo

Palomar emergiu à porta com a mão estendida.

As aves que trazia nos ombros, descolaram antes da sombra  e regressaram ao mar. Deixaram-lhe marcas na carne –  rasgos desse impulso -, pele esfiada de sangue no peito.

– Fazem-me sempre isto – sorriu. – Temem o isolamento da escuridão.

Trazia os cabelos escorridos de sal e uma alga enrolada num dedo a pingar sobre os pés, o oceano a brilhar por detrás da cabeça, o sol a arder sobre a orelha.

– Entra – disse-lhe, depois de escancarar a porta. – Trazes ondas a nascer no nariz.

Palomar quis responder mas engasgou-se e tossiu um bivalve para o chão. Estendeu-me a mão à boca para que lhe tomasse do dedo a alga suculenta e fria.

– Desculpa – e pigarreou. – Gostas? é boa, não é?

– Um pouco rija – mastiguei. – Sabe a sangue.

– Isso é mau? – Piscou o olho no tempo de um barco atravessar de supetão a pupila, o bivalve chegar-se lentamente ao rodapé.

– Não.

Palomar consegue sempre e ainda surpreender-me, fascinar-me de vento e de dunas, usar de um atrevimento enrolado em areia, ondas encapeladas, barcos e faróis.

– Não é má de todo, mas as vermelhas são mais carnudas.

– Eu sei. Quis que tentasses outras texturas e não te maçasses de mim. Assim, terei sempre de voltar para compensar-te e mergulhar mais fundo. Aceitas?

– Aceito o quê? mergulhar mais fundo?

– Sim. Tens por aí uma rocha?

– Uma rocha? para iludires-me pelo caminho da desilusão?

– Sim. E desejares-me pelo caminho da ausência. Uma rocha, uma laje, um areal aqui mesmo.

– E amar-te pelo caminho da imperfeição? agora?

– Sim, não queres? satisfazer-te pelo caminho da imaginação?

– Quero. Posso deitar-me agora.

– Deita-te. Prometo trazer-te das outras na próxima vez.

– Não tens de prometer.

– Pois não. As promessas não se cumprem para lá delas mesmas, eu sei.

–  São um logro ao qual nos aguilhoamos.

– Ainda assim, prometo sem ter de cumprir – E experimentou um chapéu do cabide no tempo de um polvo escorregar da aba, resvalar pelo mosaico e desaguar na cozinha.

– As algas vermelhas habitam os lugares mais sombrios, sabes? Nem sempre mergulho nessas profundidades.

Um caranguejo despontou do fundo das calças de Palomar, subiu-lhe pelas costas e desapareceu sob a axila.

– Agora tenho mesmo de lá ir, ao fundo, percebes? de não ter prometido e ser esse um comprometimento maior.

– Tens?

– Tenho. – Despiu as calças, depois de ter despejado todos os peixes que trazia nos bolsos. – Quero deitar-me contigo.

Um cardume escalou a parede, deixou-se ficar a serpentear na luz intermitente do candeeiro.

– Tens peixes a sobrevoar-te a cabeça.

– Tenho? – olhei para cima. – Tenho.

– Gosto de ver-te assim, acesa.

– Em curto-circuito, dizes.

A água já nos batia pelos joelhos.

– Intermitente – corrigiu.

– A minha casa é um rochedo luminoso e inabalável – respondi. – Deitar-me contigo é trair-te com todos os bichos do mar.

– Então seja. Já tens o oceano dentro dos olhos.

– Porque são verdes?

– Não. Porque são fundos.

– Nunca vens só, pois não?

– Não. Trago a solidão suficiente.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s