delta

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“Penteia o cabelo Anippe, penteia-o até escorrer dele um rio de sangue, a tua pele uma colina de pedra e os teus olhos gemas de chumbo, a tua voz um grito coagulado e mudo. Só assim se aquietarão os obstinados, te recordarão, depois de ti morta, tu que permanecerás pelos dias, séculos e séculos. Não queremos meios-termos para as coisas, pois não? Antes qualquer fim que nenhum princípio, qualquer dor que vãs promessas. Por isto não desistas nunca. Resiste, senta-te e morre os olhos para este espaço, como se adormecesses sobre a pedra grande, nesse tempo, um longo sono, e o dia fosse a partir deste instante aí dentro, estivesses agora quase a acordar de nós longe, noutro lugar, noutro mundo, impossível de nós humanos cruéis te alcançar, uma trança, uma mecha do teu cabelo que seja, uma fita, o vento que esvoaça o linho do teu vestido, um grão de areia no aconchego da tua unha. Foge de nós Anippe, dorme, foge que o fim é agora”.

Assim proferiu a voz dentro da sua cabeça, antes dos olhos descolarem da noite, avançarem do corpo, escancarados atingirem a trave, subirem sonâmbulos as farpas em direção ao cocuruto da tenda, ao firmamento, um bocejo atirado do exterior rebentar num sopro pelo lábio da lona, atingir-lhe de chofre o peito, os olhos com uma espada de mel, acordar no fio dessa lâmina cega.

Como é belo o dia – Anippe a espremer as mãos no pano -, a energia que habita, a luz que verte o mundo de eternidade, todas as pedras descomunais de todos os desertos, todas as montanhas e profundezas desconhecidas – a bocejar, a rodar a língua, a tomar do ar o gosto morno da aragem, o bailado disperso da poeira -, e toda a areia do mundo e todo o vento do mundo que aveluda a matéria e murmura recados entre as tamareiras – a tatear a pele, a carne, o peito na pulsação do sangue. – E como tudo é imenso e fervoroso. E como é pesado o mar – uma saia de chumbo sobre o mundo -, e ainda assim tão leve de entrar-se nele, vesti-lo como uma pele, desnudar-se. E como é aliciante o sal, doce e silencioso o fundo, os peixes e as algas. Ternos e mudos os arcaboiços dos barcos, a distância e a luz das estrelas, a teia emaranhada da galáxia, a projeção do voo do falcão, o manear do tigre pelas ruínas, a órbita dos astros, a seda. Meigo o amaciar dos escorpiões e dos escaravelhos nas luras – a calidez, o abrigo -, musicais as caudas dos macacos nas lianas. E as pedras embrulhadas umas nas outras? e as serpentes? e o fogo? e as arpas? Tudo. Como é belo tudo – pensa Anippe -, estes cestos, estas fitas, as cordas e o branco do linho, as flores. Como é deleitoso caminhar sobre as estátuas, as mãos pelas linhas torneadas das formas, a boca amornada pela pedra. E como são belos os corcéis, o ritmo dos cascos pelas dunas, o batimento violento dos peitos pela linha do horizonte, o couro, as facas, os olhos das bestas postos no leito do deserto, a velocidade deslizada pela orla do mar, o Sol.

“Lamuriai bestas, gemei os freios, a miragem, o dia ainda por começar, gemei e resfolgai tudo, o descanso na contração dos músculos. E vibrai musicais as veias na tensão dos colos, a altivez, a língua pelo trilho dos dentes, os caminhos ainda por percorrer. E gotejai dos beiços entretanto a água, espremei as entranhas se preciso, como se o fim já curvasse o dorso, vos rondasse a sede, bebesse a humidade da carne de dentro para fora, escalasse lento os vasos, imperceptível o avesso do corpo, os cascos, serpenteasse os ossos, encarquilhasse sub-repticiamente as vísceras, tremesse o movimento a cada inspirar mais áspero no estrangulamento da língua. Porque tereis de esquecer e ser esquecidos para renascer, morrer para ser lembrados”.

Assim proferiu a voz na mente das bestas que relincharam, rasparam o solo com mais furor, os olhos cavados, ainda cegos, revirados, chumbados de luas, as caudas como leques a assediar o sal, crédulas, involuntárias, a seduzir o leito oceânico.

E assim se ergueu graciosa Anippe do leito – os braços franzinos atirados ao sol, as pernas gravíticas sobre a terra -, penteou-se, penteou-se demoradamente, até os rios de sangue jorrarem dentro da sua cabeça, brotarem fontes. Um cabelo preso no lábio, um fio arrastado no anzol do dedo, uma língua pela secura do sono. Os olhos afundados no leito dos lagos de um oásis ainda por descobrir. Depois o vestido com gestos de vento, uma côdea de pão, um gole de água, uma peça de fruta. Tudo, quase simultaneamente, como se tudo se tratasse do mesmo, carecesse da mesma urgência, e não importasse mais a ordem dos elementos que a desordem do passado. O mundo parado e ainda a forma, o vulto dos gestos. Os passos como palmas na areia, um braço ferido de pele na porta, um arranhão atravessado, fundo, e uma gota de sangue a flutuar no pó, uma estrela morta, esquecida, como se já nada importasse, doesse. E tudo tão igual e diferente dentro do mesmo.

Quando o mar cresceu, desenhou nuvens no céu, as canoas navegavam já as asas do condor na espuma da crista, e os gritos morriam nas bocas o silêncio dos vivos. Partimos – pensaram -, amaldiçoados. Anippe olhou a água crescer como um deus, o peito encovado na inspiração de um espelho oleoso, as canoas como símbolos, penas engolidas com as dunas.

“Descansai agora deuses, descansai os dias e as noites, pela passagem dos absolvidos, pelo horizonte na velocidade das bestas, a palpitação da lava e do sal no coração da pedra”.

Anippe, sentou-se sobre a pedra grande. Trémula, cruzou as pernas sob o cesto, desmanchou as tranças e começou a pentear-se, demoradamente a pentear-se – o gesto como asas na languidez dos ninhos -, os segundos que levaram as aves em debandada, o mar enrolar o céu numa língua de musgo, impiedosos, os deuses deitarem-se sobre tudo, os templos como esteiras, e o tempo arrastado de vagas e de pedras, túmulo sob o sal, um cardume desorientado na corrente agasalhar-se depressa na barriga dum nicho.

“Dorme, Anippe”

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