odnum

“A este lugar – disseram os deuses antes de estenderem os braços, abrirem as mãos -, chegarão todos os povos, de todas as línguas, para tomar desta poeira das estrelas -, sacudiram as dobras das vestes -, a profundidade da prata, a semiconsciência. –, desapareceram no instante em que haviam chegado, vultos.”

De passagem, foram apenas esse tempo irreflectido de fazer existir. Sequer a medida questionada dos homens. E agora, são milhões os que percorrem infinitas distâncias. Porque os deuses, sabem de cor o princípio, a síntese, o modelo. Chegaram, construíram uma janela e partiram. Explicaram-se assim neste lugar desentendido entre o céu e a terra. Eternizaram-se nessa passagem. Asseguraram a continuidade em pleno ar. Para habitá-la, moldaram ainda com o leite que traziam das luas por onde passaram, um menino-deus, para que permanecesse nela, pairasse sobre tudo, a vida, dali vigiasse o mundo e o mundo o venerasse. Foi assim, asseguro-vos. E os homens que não sabiam sequer o que era uma janela, tão-pouco imaginavam a divindade, sentiram inesperadamente uma necessidade incontrolável de pertencer, de procurar. Uma urgência súbita em acreditar, até aí desconhecida, aplacada, que nunca mais sanou. Então, desenharam mapas e rotas, encruzilhadas de nervos. Confundiram todos os destinos, os dialectos, as vontades, esqueceram-se de que eram feitos. Agora, é aqui e assim que vêm. Chegam a pé e em balões, desafiando os elementos, a carne, o instinto, a liberdade feliz da inconsciência que os deuses atribuíram às crianças, aos loucos e aos pássaros.

“Os homens quererão ser peixes, quererão ser repteis, quererão ser aves – determinaram. – E serão tudo isso, desde que consigam acreditar. Empreenderão grandes viagens pelas trincheiras da terra, pelas lacunas do céu. Conceberão o que estiver ao seu alcance, no alcance dos deuses – garantiram, antes de estremecerem a terra, sulcarem os leitos dos rios, desviarem-lhes as águas por sendas, secarem-nas para que se tornassem atalhos renovados, retirando-se depois.”

Os pássaros, reuniram-se nos cumes das montanhas e formaram bandos. E as almas repetiram-se a partir de aí, inquietas, eternamente insaciadas por esses trilhos. De imediato, empreenderam viagens, percorreram distâncias, fora e dentro delas. Tudo incompreensivelmente, irreflectidamente, em simultânea míngua.

A janela é bela, perfeita na geometria, no texto, na música, na matéria resplandecente que a preenche – fogo estelar dentro dela. Fora, o mundo insurge-se de incompleta luz. É assim que permanece – etérea, iminente, luminosa, a rodopiar sobre si como um astro -, a perfeição da esfera na quietude do eixo. Nela, é o olhar e os olhos para ela. Ainda que lhe seja possível deslocar-se, permanece no lugar exacto onde foi concebida. Porque os deuses assim o permitem, o menino-deus o deseja, por sentir-se ali mais seguro, próximo de casa, determinado.

“No mundo, a criança reinará sobre os homens, entre a terra e o espirito dos deuses. Daqui, conseguirá contemplar a mais longínqua das galáxias, a mais soterrada das areias, a labareda mais fulgurante. Tudo ela verá e aprenderá só de olhar, penetrar o reflexo dos espelhos, ajuizar.”

O menino é inocente e branco como o cume das montanhas nevadas, a prata no olhar polido dos deuses. Só assim tem o poder de espiar as preces dos homens, permissão para levá-las a saber aos deuses. Só assim, poderá desculpar-se de qualquer equívoco, alegar a inocência da criança em si. Só assim permanecerá eternamente adorado, absolvido e belo. Sentado na janela, é espectro e carnação, enquanto restarem homens em Odnum, não despontarem os deuses para exonerá-lo.

Agora, são milhões os que chegam a pé de longínquas paragens, apenas para adorar a janela sobre a paisagem, firmar os olhos na divindade, fazer-lhe com firmeza qualquer pedido, justificar de esgares o culto, a jornada, a promessa, a imolação. Milhares em balão, chegados de mundos desconhecidos, depois de meses e meses a sobrevoar continentes, oceanos, desertos. A viagem às vezes tão prolongada, que muitos são aqueles que sucumbem à fome e à sede, ao desvairo, findos antes da chegada, de erguerem o rosto, os olhos para proferirem qualquer ínfima prece. Ficam os balões desgovernados, à deriva a planar fadários, até desbotar-se-lhes completamente as cores, transparecem das lonas luas e sois, galáxias, desfraldados, esvaziados, desfalecidos sobre as copas das árvores, entre as clareiras e fossos inalcançáveis. Serão depois os bandos dos pássaros a desagarrá-los dos ramos, a resgatá-los das sombras, a levá-los pelo ar como véus, pele descolada, até às montanhas distantes. Lá, provavelmente largados dos bicos para dentro das bocas borbulhantes dos vulcões.

O menino-deus, entende todos os dialectos do mundo. Por isso, escuta e atende a todas as preces, se assim lhe aprouver. Basta para isso, que o seu olhar toque outro olhar que o procura, para que perceba de imediato o que é desejado, atenda-o se entender pertinente. Como tal, cedo ou tarde, todos terminarão aqui, porque todos carecem de alguma coisa, sempre.

“Nunca atenderás a todos, porque todos deixarão de atender-te e ficarás só, e só perecerás. Atenderás apenas a alguns, para que esses nunca deixem de ser essa medida certa – a grandeza exacta da privação. – Escutou o menino-deus, antes  de ser banhado com o leite das luas.”

Agora, todos vêm vê-lo, adorá-lo trajados de branco, dessa ser a cor do menino, não quererem ofender a divindade com a arrogância da diferença. Evitam-na, em sinal de respeito e veneração, protegem-se dos pássaros. Porque se acreditam, mais temem veemente morrer, descuidados ser confundidos com as lonas dos balões, acabar levados nas garras das aves para atirar aos vulcões.

“O homem entenderá melhor o castigo que a recompensa na medida exacta do consentimento.”

Algumas vezes, o menino-deus enche a boca de ar e ventaneja repetidamente sobre as copas das árvores, rajadas sobre os balões. Com força sobrenatural, empurra-os para longínquas distâncias de onde terão de voltar. Alguns não voltando mais, derruídos por outros também desfeitos.

O menino-deus, não se inquieta com esse fim, pois sabe que outros ocuparão aqueles lugares, prosseguirão a viagem. Relaxado, espreguiça-se a cada fôlego, repete o sopro até se cansar, o céu ficar completamente despido de balões, surgirem na distância os pássaros. Então, aplaude o espectáculo entusiasmado, como de uma plateia. Bate tantas palmas que estremece o sol, a janela dilata-se, rodopia cintilante no horizonte como um astro. O menino-deus, despreocupado, ignora os brados, os corpos desmembrados, ensanguentados e contorcidos, suspensos nas árvores. Sereno, inspira, olha embevecido a aproximação das aves e canta. Ergue os braços e dança. O menino-deus, é eternamente belo, descansado, festivo. Vive em paz a quietude celestial que o repousa de tudo.

Os peregrinos pelos caminhos da terra, olham o céu vazio, apreensivos, o coração a latejar na língua. Transpirados, exaustos, alucinados, querem crer que aqueles que cruzavam o céu e que foram executados, haviam de alguma forma ofendido o menino-deus, proferido qualquer pedido impróprio. Assustados, ansiosos, questionam velozes os desejos que hesitam, reformulam as preces, receiam, rezam e sofrem.

O menino-deus, aborrecido de contemplar o céu vazio de balões, volta-se então para as nuvens. Solene, estica-se todo e sorve-as como algodão-doce, até ficar empanturrado de chuva. Depois, fixa-se na procissão branca que ascende o desfiladeiro mais íngreme de Odnum. Atento àquele reptar silencioso, lácteo, discerne na forma uma serpe, a cabeça, a mandíbula, uma bifurcação de escadas trémulas e ciciadas, uma língua. Depressa se empina no parapeito, o talo transparente a latejar na mãozinha caridosa. Compenetrado, ora. Descansa as pálpebras e chove, cresce de si um rio dourado,  uma cascata descomunal, um oceano que silencia a paisagem subitamente submersa.

Nessa altura, já outros balões sobrevoam o céu de Odnum, o oceano de oiro.

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2 responses to “odnum

  1. Os teus textos
    são talhados com o fogo
    tal como as plantas florescem
    com o calor do sol.
    Eu, limito-me a guardar um suspiro
    do escultor de tão deliciosas palavras…

    Beijo!
    Albino Santos

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