sêêê-lááá

No mundo azul, apenas subsistem os pássaros. Nada é terrestre, nada é aquático, tudo é aéreo e diáfano. Apenas quem tem asas entra, pode prosseguir, pode permanecer. Para sair do mundo azul é preciso saber morrer, e para isso é preciso querer. Como ninguém quer deixar de voar e algumas vezes esse mundo precisa de desafogar-se de tantas vontades, aves são levadas pelo vento, empurradas de encontro a espelhos, para que nasçam de novo nos olhos de quem as procura sem asas. Mas isto, sou eu que quero que seja assim – umas asas que procuro, vindas de dentro de um espelho.

Os pássaros são as vassouras dos nossos olhos a varrer o céu. Quando pousam é só para direcionar o voo. Nunca  podemos distrair-nos a contemplar as penas.

Quando decidi passar no mundo azul, foi só para procurar Blue, a menina. Porque a menina, quando ainda andava comigo pelas mãos já tinha asas, que estavam sempre a bater, a sacudir, a esvoaçar. Eu, estava permanentemente a puxá-la para mim, para mim – quieta -, e ela a querer soltar-se, porque eu estava sempre distraída do que ela me pedia, sempre a puxá-la, bruscamente – quieta. Vestia-lhe os trajes mais bonitos e fazia-lhe os penteados mais trabalhados, para que ela se sentisse uma princesa, uma fada. Talvez fosse eu a pensar, a querer que ela fosse o que eu queria ser. E ela era a mais bonita de todas as que eu poderia imaginar. Beijava-a, repetidamente, muito, e dançava com ela nos espelhos. Geralmente, fazia-lhe uns totós e prendia-os com fitas – uns lacinhos brancos de cetim -, vestia-lhe uma camisola da cor do mar, uma saia carmim às pregas e ao peito colocava-lhe um pregador dourado com a forma de uma abelha. Às vezes, ainda me faço uns totós assim – vejo-me -, e pareço-me  ainda ela, bem lá no fundo dos meus olhos, quase. Tenho de olhar bem de pertinho e muito bem fundo – tanto, tanto, que chego o nariz ao vidro e embacio tudo. Não consigo descobrir o caminho, nunca. Penso que talvez seja por culpa do embaciado que não a vejo – o vidro molhado como um dia de nevoeiro, a chorar, a rever um rio triste, lamechas, escorregadio, ressentido, a cobrir por completo o leito, as margens que revelam o caminho dos passos descalços dela, o fio azul que nos une, ainda.

Os espelhos têm a passagem para o mundo azul. A entrada acontece quando fixamos o olhar e nos desconhecemos. É nessa abstração total que descobrimos o código, encontramos o fio e puxamos – penetramos no vidro e desaparecemos. Deste lado, ficam apenas os fantasmas à procura das chaves.

Blue, tinha asas – quieta, dizia-lhe, mas ela estava sempre a mexer-se. Umas asas tão grandes, tão grandes, que pareciam mais longas que raios solares, que caudas de cometas, estrelas cadentes. Distraí-me – estúpida que fui -, e ela fugiu-me, voou. Deve de ter sido num dia de muito, muito vento. Que eu gosto de dias ventosos para passear, sem chuva – o ar a fazer-me festas na pele e nos cabelos. Deve de ter sido num dia assim – foi -, que ela também gostava de vento e estava sempre a pedir-me para experimentar as asas. Um dia muito ventoso, de sortilégio e prenúncio – e eu a levá-la de mim. E fui, levei-a num dia desses a passear ao vento, pela mata, que sempre gostamos de passear juntas pela mata, nunca pelos jardins. Ela não gostava nada de jardins, de ver tudo tão aprumado, formatado, aprisionado a limites, cercas e estreitos. Entendia que tendo ela asas, mais depressa a natureza devia tê-las, pelo menos, delas não ser privada . E jardim, é uma palavra muito feia, muito mesmo, assim mais ou menos como – ergástulo – que é ainda mais feia, feia, mas apenas para que jardim, seja uma palavra mais suportável. É que a menina prefere tudo o que é puro, selvagem e livre. Não se importa nada de passear a levar com espinhos nas pernas, tropeçar nas pedras, de uma ou outra picada de insecto atrevido. Gosta de teias de aranha nos braços. Na cara é que não – tem medo que as aranhas lhe entrem pelos ouvidos, desçam pelo corpo e lhe teçam teias no coração. A menina nunca vai deixar entrar uma aranha nela, nem pelos ouvidos, nem pelo nariz, nem por qualquer outro orifício. Se isso acontecer, sabe que o coração vai deixar de bater. Vai ficar contorcido de sangue venenoso, vai lançar fogo que vai percorrer as veias até às pontas das asas que vão atear-se e arder, de dentro para fora, até chegar às fitas do cabelo.

Os jardins no mundo azul, chamam-se – ramrajmid, que é mesmo que dizer um nome inventado para uma coisa verdadeira, em que não se acredita. Assim, para que se memorize, se procure e não se encontre e esqueça. Porque sempre que encontramos as chaves para o ramrajmid, os pássaros varrem a passagem dos espelhos de nós que já partimos, no tempo imaginado das flores.

Blue, tem um coração de ouro, dourado como o sol e como a areia do deserto, e a poeira das tempestades, e as jóias soterradas, o reflexo solar no delineio das formas. E o sangue dela, é quente como o peito das aves, o cheiro das penas junto à boca, a sede nos lábios gretados, uma pedra grande e lisa na hora vertical do dia, o bafo de um lobo, as carícias escaldantes do vento nas dunas. E eu que gosto tanto do deserto, e do vento, e dela ainda, a custar-me tanto este tempo, que tenha partido, largado a minha mão naquele malfado dia, largado do meu peito incauto. E eu que agora já não coleciono folhas, que já não posso, que já não sei. Eu que gostava tanto disso, dela que gostava tanto de calcorrear os atalhos, subir às árvores e aos muros, serpentear os pinhais para destapar a terra húmida, cheirar aquele morno sob o manto de caruma. Ela que colecionava folhas, e bichos mortos, pedrinhas – juntava-as todas em frascos de vidro ruidosos e bonitos. E como eram bonitos os frascos, e ainda são, agora mais tristes e baços de tantas mãos, tantas vezes, tanta saudade. Ela que gostava de encostar o rosto às cascas das árvores, pôr-lhes às vezes a língua, encostar-lhes o nariz e cheirá-los de pena de não poder ser dentro deles um bocadinho. Ela que sabia o sabor da caruma verde, das cascas dos pinheiros, das folhas dos eucaliptos, o gosto dos casulos mentolados, a aspereza agarrada aos dentes, a aspereza doce e húmida das pontas das silvas, o açúcar dos caules enterrados das ervas, das pétalas soltas das flores. Ela que sabia que dentro dos bugalhos, mesmo ao centro, no interior almofadado, se encontra um ovo com uma larva.  Ela que sabe tudo isto e como tudo isto é perfeito.

As coleções no mundo azul são feitas de memórias, de pele e de vestidos, de línguas e de vento, de calor e de sangue. Que no mundo azul tudo é verdadeiro e tangível, como a fome, só que do avesso dos sentidos. Como aquele sentimento que imaginamos que não é ainda aquele, mas outro que já é, mas ainda não se sente de ser-nos eternamente uma linha paralela e uma trincheira.

Tenho tantas saudades da menina, tenho mesmo, do que ela sentia, do doce que provava das coisas que metia à boca. E ela deitava mão a tudo para provar, para perceber a que sabiam as formas e as cores e o toque. Muitas vezes, durante os passeios arrancava e dilacerava folhas entre os dedos só para cheirá-las profundamente. Ela sabia o perfume de um número incalculável de folhas e flores, o cheiro verdadeiro dos nomes. Ela gostava mais, gostava muito, do aroma das folhas das heras, das flores de sabugueiro – quando eram vivas, quando mortas e arrancadas da árvore, quando apodreciam velhas e caíam a cheirar ao sangue coalhado da terra. Também gostava muito de comer bagos de maçãzinhas anãs. As cor-de-laranja, que as encarnadas dizia que eram venenosas. Essas não, dizia, e eu sabia que era verdade, pois ela era como os pássaros e todos os outros animais selvagens que sabem tudo o que devem. Quando íamos à praia, lambia o interior das conchas, a lisura dos godos, a languidez das algas que rasgava e chupava de sal. Ela sabia tudo de cor e dizia-me, e eu percebia com ela que o mundo era maior e mais belo. Agora, quase me esqueci de tudo, quase me esqueci que fui dela um dia, que fomos juntas. Que falava com as árvores e elas respondiam-lhe. Quase me esqueci que cantava, esqueci a canção de parar a chuva. Dela de costas na árvore, mãos no tronco.

Sêêêêêêêêêêêêêêêêê-lááááááááááááááááá – e parava os mesmos segundos;

Sêêêêêêêêêêêêêêêêê-lááááááááááááááááá– e parava os mesmos segundos;

Sêêêêêêêêêêêêêêêêê-lááááááááááááááááá, – e parava os mesmos segundos;

Bem alto,  a melodia e os segundos de silêncio que ecoavam, até parar a chuva. Parava e depois chegava o vento. Bem lá no íntimo, era o vento que esperava para as asas que tinha.

Um dia, vou esquecer-me tanto, dela, de mim, que até vou esquecer-me que tenho medo. Nesse dia, vou subir bem alto, mesmo sem as asas dela. Vai ser num dia de muita chuva, para que cante mais alto a canção de parar-chover. Alto, alto para sequer ouvir-me, ensurdecer de mim. Um dia de tempestade, de novelos repentinos de vento, maiores que os do deserto. Um dia em que vou debruçar-me na janela, colocar-me de pé no parapeito, de costas e mãos no tronco da minha árvore transparente, para cantar a canção de parar-chover. Depois esperar que chegue o vento e me leve. Estarei para ele preparada, livre e leve, fácil de pegar. E espero que me agarre logo, inteira, me segure e leve pelos cabelos a varrer o céu, para que me lembre que um dia larguei de mim a mão. E quando sobrevoar o mundo azul, há de o meu sangue gotejar, e Blue há de bebê-lo, saber nesse instante que morri, o caminho de volta aos espelhos por onde já não existo, mas por onde ela poderá  sempre regressar.

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