“pavilhão um”

Costumo encontrar mortos nos sonhos, vivos entre gente singular, cidades e mundos estranhos. Algumas vezes, ainda lhes falo, se posso, se mo permitem. Poucas vezes consigo perguntar-lhes o que quero, fazer com que me expliquem o que faço ali, o que neles procuro. Grande parte do tempo limito-me a olhar, a voar, ou simplesmente a nadar, a deixar-me transportar pelo instinto, sozinha pelos mundos, dentro deles a levar-me só de vê-los, a guardar na memória o possível de tudo isso.  

Só há pouco soube que o céu é composto por pavilhões, ainda que não lhes saiba o sentido, a disposição, o que guardam e porquê no seu interior, o que fazem por lá e por quanto tempo almas deste e de outros mundos. Sei apenas isto que é pouco, mas talvez baste para que entenda e sinta que é de muitas outras cores e outros estados a nossa vida, forma tosca que pareçemos, somos, do mundo outras maravilhas desconhecidas.

Sei que a minha mãe está no “pavilhão um” e que o meu pai está no “pavilhão três”. Não sei de outros pavilhões nem de mais alguém de que possa dizer ou contar. Deduzo porém, que sendo o céu infinito – seja lá o que for o infinito -, existem muito mais “pavilhões”, que de alguma forma obedecem a determinada ordem ou modelo celestial – uma espécie de organização que respeita hierarquias, determina espaços, faz deles passagem e estadia costumada.

Sem querer parecer entendida, que não sou – muito longe disso -, mas apenas por instância emotiva, creio que o “pavilhão um”, é um lugar mais prazeroso de se estar que o “pavilhão três”. Mas apenas, e unicamente conduzida por uma avaliação pessoal de fatos vivenciados, que podem muito bem nada ter a ver com esta disposição de valores.

Todas as madrugadas – porque só elas existem no céu -, são os anjos condutores os primeiros a sair, a passar as paredes do “pavilhão um”. Não existem portas nem janelas. Vêm ainda estremunhados, os olhos remelosos de estrelas, os cabelos engadelhados de sono, as bocas escancaradas e as asas desarrumadas. Sob a luz amena de várias luas, esticam o corpo franzino, os braços no ar, espreguiçam as pernas, os pés quase em pontas de bailarina, as extremidades das asas descuidadas a tanger o chão; como se um outro céu os puxasse para cima e o mundo os puxasse para baixo – a alma se mantivesse presa e protegida assim, ao centro, e fosse essa a  única razão de existirem – manter intacta a alma. Depois, esticam ainda mais os braços, abrem as mãos e a envergadura das asas no sentido do firmamento, os pés seguros nas fitas das sandálias desapertadas, as peles celestiais sob as armaduras torcidas nos corpos.

Todas as madrugadas, são estes guerreiros celestiais os primeiros pássaros do céu. Aqueles que surgem primeiro na paisagem, na planura transparente das paredes do “pavilhão um”, mais luminosas que as faces de uma pirâmide de cristal. E acontece sempre assim, da mesma forma, os mesmos gestos, as mesmas entidades a trespassarem as mesmas paredes, cada qual na sua vez, quase todas na vez de uma. No céu, onde a perfeição se repete em tudo, e tudo nela se duplica eternamente num estado sem corpo que se sente, de alma apenas pressentida.

Todas as madrugadas, depois de se acharem todos fora do “pavilhão um”, os anjos alinham-se numa fila infinita, ordenada – sérios como numa parada respeitosa, que se repete e sabe de cor. E ficam assim o tempo que o infinito leva, a par uns dos outros, numa espera paciente que o tempo vestido de espaço leva a atravessar o corredor inteiro trajado de branco por eles formado. O destino, encapuçado e veloz com um olhar de fogo que nenhum anjo ousa desafiar,  fixar, mas sabe que acontece e passa por ali. E é nesse tempo sem contagem, que o destino toca as mãos dependuradas dos anjos, pousa-lhes nos dedos recados de palavras e poeira que arrecadam e levam depois ao mundo, a ler às mentes os caminhos pressupostos da carne, às artes as poeiras divinas.

E nada se passa assim noutro templo celestial. O “pavilhão um”, é o primeiro deste espaço de céu, onde tudo ascende à eleição.

São três, os lagos de que me lembro, circundantes aos jardins do “pavilhão um”. Um, em que a água se caminha, se for essa a vontade das almas; outro, em que a água se respira e as almas se passeiam submersas; o terceiro – o que a minha mãe mais gosta, por ser mais livre e habitado -, em que a água copia a forma das coisas e levita. Certas madrugadas – é isso que acontece -,  o lago modifica-se, agita-se  dentro de uma vontade própria, recolhe-se ao centro e ascende na forma de um cone impossível de água repleta de vida – plantas e bichos das profundezas. E dilata-se e cresce, ascende à grandeza de um vulcão que brota da superfície lisa, até que explode e cospe de um remoinho líquido, lava de peixes e plantas aquáticas. E tudo o que nasce dessa montanha de água e vida, é atirado para cima, ganha asas e voa. E fica assim, a sobrevoar o céu, até o lago esvaziar de vida e deixar-se tombar novamente e adormecer. Então, as aves que foram peixes, olham para baixo o lago espraiado, e sobem ainda mais alto até se perderem de vista, aparecerem depois como chuva colorida e luminosa, bandos de aves, novamente peixes que mergulham no lago e desaparecem no fundo, perseguidos por anjos a eles ancorados de escamas.

Outros anjos que andam pelos jardins, inventam arbustos e flores. Certas ocasiões, exageram na excentricidade que procuram e fazem crescer composições ímpares que se agigantam de tronco e de membros, verde e flores. Algumas, ultrapassam mesmo o tamanho do vulcão de água, agigantam-se em cornucópias de escadas atapetadas de flores até ao limite que os olhos conseguem acompanhar. Os anjos, numa roda gigante de mãos dadas, rodam a estrutura florida num voo que ascende da base até ao vértice estrelado de asas. E tudo cintila e balança, dentro do remoinho vivo, como um coração latejante que de repente explode e lança tudo pelo ar – os anjos para trás de mãos desatadas, os troncos, os ramos, as flores que ficam ainda alguns segundos suspensas, depois oscilam e precipitam-se sobre o horizonte, em forma de árvores e plantas de todos os feitios e cores.

Sempre que qualquer coisa explode no céu, é assim. Os anjos que tocam música no telhado,  estremecem e escorregam até ficarem presos pela cintura, os rabos resvalados nos beirais. Muitos, deixam cair os instrumentos defeitos em areia. Os que seguram ainda os violinos, soltam das mãos os arcos que lhes fogem, escapam e seguem como flechas em direção ao infinito – perfuram a abóbada celeste e vêm cair neste mundo, a  importunar de amor os crentes que ficam acordados a pensar na possibilidade deste céu.

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