hadal

Na planície, os cardumes passam céleres no tempo dos meus olhos. Levam as cores do arco-íris no reflexo das escamas, arrastadas pelo caminho anoitecido. Um arco colorido em movimento, na perseguição da luz submersa.

Regressaremos um dia à origem, disse-o, quando nós, ainda peixes, água, cruzávamos o oceano, elementos do fluido essencial, da seiva original. Nós, entendidos, quando ainda havia vida aqui, habitávamos a consciência primária e matemática das coisas, destrinçávamos os reflexos.

Agora, para cá das ruínas desta espera, resta-nos confiar no tempo disperso, no espaço fragmentado de vontade exacerbada, no rodopio dos avanços, apressados na ansiedade de voltar a pertencer. Resta-nos isso, o interior, a intenção arreigada no desejo garantido de submergir, desaparecer no fundo, reaparecer só depois do limite. Acontecerá um dia, sei – reinício e junção -, redesenhados no retorno da espécie unificada.

Não me apavoram as marés, as correntes, as trevas, os sorvedouros, as tormentas, as vagas, os cascos prostrados, os náufragos, os remos escapados, as âncoras desgarradas, o arrasto das redes pelas poeiras do fundo; desgastando-as, dispersando-as, fraturado os corais, desorientando as rotas, remexendo e descompondo as terras, afugentando cardumes eternamente regressados. Sequer o mistério, a imensidão dos monstros que partilham as águas, preenchem camuflados as grutas, dissimulados povoam o mar dos sargaços, fantasmagoricamente provocam os sonhos. Sequer a superfície parada, maleável e luminosa que une e separa, duplica o céu numa fulgurância refletida, me assusta. Sequer o sentimento perfeito.

Depois do breu, nada mais me assusta. Reconheço engenho no negro mais obtuso, intrincado e pernicioso. Sou capaz da alma na avidez primária do horizonte, quieto e silenciado. Pertenço a esta imensidão oceânica, à reentrância das grutas, ao recato labiríntico e incólume das profundezas, ao trajeto das correntes no sentido do vazio azul, que apazigua, completa o contentamento incorruptível e eterno das pausas. Recupero o fôlego nesta natureza, na dimensão das escarpas invertidas, das montanhas eminentes, no coração das elevações descarnadas, na luz emanada pelo sol daqui, suspenso na fosforescência enigmática da água, índigo e singular. Insinuo-me neste orbe num aconchego quente e pacífico, na felicidade uníssona e possível, transpirada de plâncton, para cá dos corpos habitados, cativos dos sonhos nos sentimentos venturosos.

Deito-me no fundo do mundo aquático. Dentro do silêncio vazio, dependuro-me e hiberno.

O peixe-estrela, de olhar vítreo, de infinitas mãos e braços, precipita-se do corpo celeste, livre na resplandecência ilimitada, na velocidade das correntes, na capacidade veloz do pensamento. Preenche de contentamento a densidade do leito, a rigidez das rochas, a viscosidade das algas, a agressividade harmoniosa do coral, a alma dos peixes, grandes e pequenos, microscópicos, imaginados, permanentes, instintivos. Metamorfoseia-se no peixe encarnado que passa, abandona as montanhas cavadas e avança veloz sobre a linfa, no propósito sabido da superfície, ao encontro do firmamento vago do outro universo. É maior que qualquer baleia, que uma ilha inteira arrancada, apertada de escamas e sangue. Sensível e disforme na noite líquida, é velocidade e desígnio. É medonho, para que não se duvide da verdade essencial que o move, faz cruzar o céu deste mar, perfurar o sustentáculo e levitar para lá da superfície de planícies onduladas, de horizontes reconhecíveis. Atravessa o vento e invade a transparência negra do espaço, distancia-se até deixar de existir no alcance possível do voo. Numa fração de segundo, plana, detém-se – o corpo suspenso -, franqueia a boca e atira-se em frente, cego no sentido da luz. Devora meia-lua de sol num eclipse de barbatanas, chama e silêncio. Depois, é novamente ímpeto, velocidade, peixe-cometa em descensão vertical, mergulho lúbrico e saciado de regresso ao fundo. Vislumbre na passagem líquida, na distância que o reclama no cume da fossa, depois do limo, de mim, dele mesmo. Na profundidade agitada onde incita tempestades, arremessa vagas, expele do  interior o saque de luz esmoída, o fragmento de sol deglutido, resplandecente na inocência de um alicerce novo. Alumiará com ele a noite das almas submersas. Na intensidade luminosa, revelará os peixes, despertará as criaturas taciturnas das sombras.

O deus acorda, recompõe-se do abandono das ruínas mediterrâneas. Ergue-se das areias. Incomodado, sacode-se das algas enleadas no granito da pele, do frio fendido na carne petrificada. Penoso, descola o peso do limo. Não permanecerá ali. Não permanecerei com ele. O deus, não se entende na luz. Deambulará para paragens menos complexas, onde o seu corpo pétreo, reconstruido, será mantimento de líquenes de outras planuras, vales e montanhas oceânicas. As mãos plantadas de algas, afugentarão perplexidades e crescerão estrelas no interior do seu corpo, atiradas de encontro aos peitos daqueles que demandam amor. E todos participarão da força do seu corpo de pedra, escaldante como lava. E todos, nus, oferecer-lhe-ão o peito aberto, a alma. E o deus, moldará a energia toda no seu interior. Fará do seu fogo o sangue de todos.

Na profundeza, vejo-o na distância ainda descomposto. Evoco depressa um cardume de peixes prateados, moldo um barco lunar, desfraldo as velas de água e parto. Extingo-me na corrente. Quero afastar-me, ir mais fundo, mais longe, adormecer de tudo. Quero ultrapassar depressa a luz, atingir o azul infinito e puro, desabitado de deuses.

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