dinictis

Quando os dias são assim, áridos e extremos dentro das areias, amarelos e porosos, o deserto é mais verdadeiro, completo, as janelas sobre a planície são infinitas. As folhas que detenho para dizer o que quero, impregnam-se de suor e disponibilizam-se. O tempo não existe, e o espaço renasce de uma vontade interior, há muito residente no coração das pedras, remanescente na franqueza do deserto, na pureza do vazio, na disponibilidade bucólica do silêncio. O céu, recolhido na luz, sobrevive dentro dos sopros mais contidos, mais reprimidos e tímidos, mais profundos e ocultos. São dias de apego, de apenas eu e o gato, a deusa, o deserto, as almas, o preenchimento absurdo. São dias em que levito, voo, atravesso no vento os desertos, sento-me num bloco de pedra e pó e espero. Detenho-me aí, o tempo do desembaraçar de um remoinho, de uma tempestade de areia. O tempo que levar até que surja  Dinictis, eu desperte e escreva. Vejo-o antes mesmo de procurá-lo, de pensar nele, ainda prisioneiro do vazio, ainda desconhecido. Vejo-o um pouco depois, já nome, móbil, entidade incendiária,  preenchida – animal de corpo e alma sobre o horizonte, seguro da sua natureza, da sua identidade, poder, seguro de nós – simultâneos. Aos poucos, distingo-lhe a forma diluída na paisagem, arrastada, deformada, o corpo felino esculpido contra o horizonte num reflexo distorcido, numa inquietação que rasteja, oscila, ondula pelas dunas, avança em direcção às ruínas. A cada passo, fixo-me nele. Detém-se para olhar sobre as pedras, procurar-me, ver-me, prosseguir a marcha, ciente das minhas folhas ainda vazias das palavras necessárias, da intenção perfeita. Perco-me neste reflexo de Dinictis, chegado de outras paragens, longínquas, cansado e faminto, em busca de descanso e alimento. Perco nele os olhos e suspiro, no deserto subitamente contraído na forma do seu corpo em movimento, desfocado contra a profundidade que o sustenta, denuncia. Percorro a atenção pela miragem sacudida no sopé do horizonte, o alternar dos membros, disformes, doridos e lentos, arrastados, o bafo imaginário, quente, o Sol reflectido no olhar das pedras. Dinictis, penso-o. Dinictis, penso-o e revejo-o, reconheço-lhe as palavras, a cor da pelagem, o odor, a tonalidade ocre do corpo desfocado contra os tons da areia, das pedras, do céu desmaiado da tarde, do passado. Na proximidade do aglomerado de formas, detém-se um segundo, balança-se e atira-se, precipita-se sobre a placidez empoeirada, densa, a cidade dispersa pelo aglomerado de pedras, palavras, testemunhos, dissipação. Acomete-se de rocha em rocha, de mim em mim, dentro do meu batimento, sobre as ruínas, os vestígios semeados pela planície de Bubástis. Apressa-se em chegar, seguro de que está perto, brevemente no lugar que procura, que ocupa na minha companhia, na companhia de Bastet. Dinictis, procurará primeiro Bastet. Bastet não perdoa insolências. Fixo-o, desenho-o rapidamente sobre o branco da folha, uma linha curva, apenas, ainda. Seguro-o na suavidade delineada desse vislumbre, o dorso nascido de um movimento ocre, acariciado por mim, a minha vontade de prendê-lo, um dedo sobre a linha, sobre ele, a folha que repete o seu nome dentro do meu silêncio – Dinictis – , não consegue esquecê-lo. Olha-me. Sabe. Abranda a marcha e prossegue mais lento, dentro de um prazer contido, sobrevivente na aragem possível que circunda as sombras, carcaças de lianas contorcidas, os espinhos dos abetos, as ervas cortantes, o espaço que une as sepulturas, o peso desgarrado dos mortos.

Há muito que ninguém habita Bubástis, apenas o espaço e as almas que nunca abandonaram a cidade, a razão dos templos e que vivem de passado, estirados sobre blocos de pedra, a bafejarem cânticos, a inquietarem sistros, a murmurarem preces, a esculpirem danças, a rebolarem  dentro de novelos de galhos, vento e pó, pela continuidade das arenas nuas.

Dinictis teme a presença dos homens mas estima a presença das almas. Dinictis pertence ao passado, pertence-me, pertencemos a Bastet. Vivemos uns dos outros, esperamos uns pelos outros. Dinictis estima as almas pela companhia que lhe fazem. Um dia, quando o seu corpo estiver cansado, faminto, ferido, desfeito, retalhado, incompleto de membros e reconhecimento, não regressará mais pelos caminhos do deserto. Estará para sempre vivo dentro da planície. Terão de procurar o deserto para encontrá-lo, encontrar-me a mim.

Dinictis, nunca olhou Bastet nos olhos. Dinictis receia fazê-lo, com esse olhar descobrir a verdadeira essência, desvirtuá-la e perdê-la. Eu nunca olharei Dinictis nos olhos, apenas a miragem da sua presença em Bubástis.

Dinictis, recupera do cansaço dentro do peitoril da janela de pedra amarelecida, da sombra oblíqua, no recorte que liberta um retalho de céu, sempre disponível, possível. Tem o corpo prostrado sobre o granito brusco, a barriga firme de encontro à pedra, as patas atiradas ao comprido. Tem os olhos postos nas dunas, na imagem fixa das dunas, das areias que se movem, alternam, ondulam. Bastet, invadirá a qualquer instante esse recorte inclinado da janela. Dinictis, levantar-se-á, e espreguiçar-se-á num bocejo, seguido de uma saudação. Dinictis não boceja na presença de Bastet. Lança-se da janela sobre a areia suspensa do chão em cornucópias de pó.

Bastet aproxima-se, baixa ligeiramente o olhar e prossegue, majestosa sobre a cidade eterna, de pedra em pedra, vontade em vontade, as mãos elevadas ao empíreo, descidas sobre as ruínas, a levitar as almas, as pedras, a reconstruir os templos, as ruas, o caminho que levo – branco de preenchimento, quase.

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4 responses to “dinictis

  1. Extraordinário texto, Manuela Carneiro. As palavras assomam ligeiras e fluidas, na construção harmoniosa de um regato cristalino e vivo de ideias que se interpenetram para dar corpo à frescura da mensagem.

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