lettre

«Minha querida Michèle,

Hoje o meu tempo foi maior que todo aquele de que alguma vez beneficiei para dedicar a uma tarefa desta natureza. Maior, porque foi um tempo livre de preocupações maiores – sair, procurar e ver. Um tempo livre de banalidades. Não me faltam aqui cigarros – tenho-os gratuitos, ainda que em menor quantidade e mais espaçados. Não discuto marcas. Não me falta dinheiro porque não o tenho e aqui não preciso. Como tal, descansa que não te envergonho mais com pedidos de empréstimos, discursos e disputas. Quero que fiques com o impermeável para ti. É teu, é forrado e fica-te bem. Vende-o se quiseres. Talvez não valha bem os 10 000 francos, sequer os 5 000, não sei. Faz como entenderes. Desculpa a cena no jardim com o americano. Já não me importa saber se foi ele quem me denunciou, chamou a polícia, deu indicações sobre a casa. Tu, sei que não foste, apesar de tudo, dos aborrecimentos, do passeio que terminou no campo sob a tempestade, contra a tua vontade. Tu sabes.

Agora, a minha casa é esta, outra, e está sempre arrumada, sem que tenha de ser eu a preocupar-me. As minhas tarefas são mínimas – arrumar o quarto, recolher urina para análises, responder educadamente aos eternos questionários, respeitar o silêncio quando é exigido, que é quase sempre. Porto-me bem. Tenho o papel que quero para escrever, quase tudo o que ambiciono para ler. Não tenho uma cadeira de repouso como a que tinha na casa, sequer uma janela com vista privilegiada, uma mesa de bilhar para me deitar contigo a fumar de olhar apontado para cima, para o teto, para o invisível. Não me deito contigo lado a lado, sem palavras, sem toques, apenas atento aos ruídos, a discutir guerras acontecidas, possíveis, imaginadas entre silêncios.

Aqui não há ratos. Os ratos, aqui são homens que não me provocam ao ponto de sentir-me obrigado a apontar-lhes o limite existente entre as espécies, decidir-me a matá-los.

A minha janela com vista para o mundo é agora feita de cruzes, símbolos que só o pensamento pode decifrar, transpor. Vejo nelas o que procuro.

Penso mais – é o que faço mais, agora, aqui – pensar -, dentro deste meu novo lugar de cara lavada, fresca, suave. Existem outros estrompidos, outros silêncios, outros caminhos. Procedo apenas de forma diferente dentro do mesmo processo.

Um dia destes lembrei-me do rato que encontrei sobre o amontoado de espinhos, das centenas de pontilhados vermelhos que tinha ao redor da cabeça. Lembrei-me de mim fechado na sala da casa – eu rato -, o rato apenas rato, cercado por mim. Recordo-me então humano, verdadeiro, poderoso, inteligente, apto – sem artefactos falsos de humanização. Agi em conformidade com a minha natureza.

Um dia destes, interroguei-me sobre a identidade de Céline J., que escreveu com um canivete no aloé: “Céline J., vous emmerde. Cèline J. vous dit merde”. Vi e fiz jus à merda da realidade desentendida.

Já terminou o calor, o Verão eterno que amolece a vontade de tudo e para tudo. Ainda bem. Aqui, a estação permanece sem nome e sem oscilações – a temperatura é claramente ideal para perder o rumo e receber visitas. Tratam-me bem, sinto-me bem. O processo reinventa-se, adapta-se, continua. Deixei de fazer contas ao tempo, dilui-me dentro da própria continuidade. Não sei bem se ascendo ou descendo. Já não saio como antes para ver, perseguir, anotar, confirmar. Desde que aqui estou que não vejo a praia, a cidade, sequer um cão. Talvez esta privação me preocupe de alguma forma. Sei o quanto é importante sair para ver. Esta liberdade provocada peca por não ser completa, incitar uma verdade suspeita e desvirtuada.

Aqui vejo e persigo homens, instrumentos, visitantes, interrogatórios e reações. Deixo-me arrebatar pelo pensamento até onde este conseguir levar-me. Falo o que quiser e sou escutado com interesse. Acredito que me escutam mais a mim que à lógica das minhas dissertações. Procuram-me a loucura nos olhos, nos gestos, na incoerência. Procuro a praia, os godos, o cão. Procuro-te a ti, aos afogados, ao húmus, ao núcleo. Procuro entranhar-me em tudo como antes, porém temo que esteja de alguma forma em retrocesso. Sinto-me afogado dentro de mim mesmo, a distanciar-me. Esta espécie de ausência, de abstracção, a humanidade não compreende, não perdoa. Por isso estou aqui, uma espécie de cobaia para cobaias.

Não temo a morte. Faz parte do processo conhecê-la. Não temo a vida, apenas a incapacidade de passar por ela sem ter vivido tudo, compreendido tudo, participado de tudo.

Terei sido rato esmagado sob o peso e a dureza de bolas de bilhar. Rato atirado da janela do primeiro andar sobre um amontoado de medronhos. Um saguim no jardim zoológico.

A guerra maior é aquela que travo em mim, comigo.

Não vou escrever a carta grande e amável à minha mãe, como me pediu. Se um dia a conheceres, diz-lhe que careço de palavras, de intenção. Não lhe digas que lamento. Isso não, nunca. Não lamento nada. A vida é simplesmente o que é.

Preciso de falar-te, sem perguntas, sem pedidos, anotações, conclusões.

Um humano não é bom, nem é mau – é simplesmente humano.

Raparam-me o cabelo e pareço um americano.

Adão Pollo»

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4 responses to “lettre

  1. Fui envolvido por um ambiente fresco e relaxante, a tela que pintei, foi de cores amenas e esboços de traço único, a música, essa estava longe no teclado de um qualquer piano.
    Gostei muito deste momento.

    victor gradíssimo

  2. Belissimo texto Manuela!…
    Todos travamos uma guerra connosco próprios. Talvez seja isso que nos estimula o dia a dia que tantas vezes vivemos cheios de dúvidas!…

    Um beijinho!
    AL

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