trabuzana

Desde o anoitecer, o descerrar da tempestade, que Apolinário resiste – permanece prisioneiro do mesmo lugar, da mesma vontade arremessada. Desgarrado, brota e agiganta-se dentro da escuridão – vítima de uma intenção caprichosa, imprecisa, desentendida -, na noite com toda a pujança do nome – gélida, cerrada, morosa, aziaga. No semblante do momento – indecifrável, eterno, agnóstico, cruel -, Apolinário avança apressado. Quer falar comigo, esclarecer tudo – intrigado, furioso, sorumbático. Assomado do nada, da floresta, do vazio em dois saltos de lince, galga a berma e aterra sobre o asfalto onde inicia uma marcha inesperada. Traz o fato rasgado, colado ao corpo, o cabelo desgrenhado agarrado ao rosto, escorrido pela testa. Na face, uma expressão irracional, primitiva, sôfrega, malvada. As calças, sacodem o movimento como bandeiras desfraldadas sob o peso da água. A luz de um candeeiro, único ali, incide sobre a superfície da água empoçada, da água suspensa, da água desorientada, fustigada pelo vento. O verniz dos sapatos cintila, pontapeia estrelas intermitentes – duas -, dentro de um andamento ritmado, alternado, que a cada passo precipita-se para dentro do olhar de quem vê. Pestanejo. É neste quadro que Apolinário existe, que eu o concebo. Avança lesto, com as mãos empedernidas, fechadas dentro de dois murros. Percebo-lhe o ódio, a fúria, o desgaste, as veias dilatadas em cordilheiras de sangue, a fronte latejante, o coração palpitante e dorido, o fôlego dilacerado pela geada noturna. Ninguém pede para nascer. Quase que o escuto e receio. Quase que me compadeço e largo. Vejo-lhe a determinação no olhar e permaneço. Os deuses, não desistem da obra. Ninguém escapa ao destino, à criação, ainda que torpe – nada. Deuses inevitáveis, impossíveis, infinitos. Tu, Apolinário, dóis-me, pertences-me, és mea culpa. Se não existisse luz nesse candeeiro, talvez nada acontecesse assim. Pertencesses a outro mundo, outra coisa ou alguém, entidade. Fosses menos que uma sombra dentro da obscuridade, da forma, dos passos, do intento. Chovesse menos nesse caminho velado e o teu movimento avançasse moroso e insondável, contigo diluído, transfigurado num vulto indefinido, desnecessário, condenado à extinção. Enfraquecido, serias fragmento exíguo no meio da tempestade. Desaparecerias, comigo finalmente liberta da tua existência, do meu comprometimento. Este texto, acabaria aqui, como a vida dentro de um sentido inexplicável, pretérito, viabilidade desconhecida. Tu, leitor, ficarias perplexo com o tempo que perdeste a ler e a deambular nesta amálgama de cogitações. Acalma-te. Se continuares, piora. Desiste aqui. Neste momento não há musa que me salve, que não te condene, por participares iludido nesta farsa. Arriscas agora ser o deus do teu próprio julgamento, desta minha divagação – culpa e amofinação. Ninguém cria e sai impune. Ainda estás a tempo. Vai. Fá-lo agora e continuarei sem ti, na companhia do Apolinário, meu presente e inevitável invento. Engenho que posso muito bem abandonar, desviar da minha atenção voltada para outro lado – uma pedra, uma árvore, o oceano por detrás da floresta. O mar de ondas gigantescas que penteia neste momento as rochas, maníaco abraça e beija de morte o farol. A espuma negra que fustiga a praia com chibatadas de sal. Posso deixá-lo assim. Deixar-te assim, de existência incompleta. Voltar-me para aquela casa além, suspensa na noite, no firmamento, a parecer uma fogacha dependurada, quando sei que não é, que está assente no monte, no limite de terra trilhada que leva até lá. Que me dizes? Por que não rodas o corpo e olhas? Não te interessa, Apolinário? Tu, és a ideia, mas não és o deus completo. Não existe ideia sem conteúdo. Aqui, eu ainda sou. Haverás de caminhar até à eternidade dentro deste texto, na memória deste texto, no passado deste texto – eu não -, mesmo depois de fragmentado o texto, destruído. A casa, além, tem uma janelinha iluminada. O Sr. Álvaro, está velho, está neste momento sentado no canto da cama, a cabeça inclinada no sentido da janela. Parece-lhe sempre noite. Arrasta-se. Está agora sentado aos pés da cama, no centro amolgado, o olhar repousado sobre os chinelos a meio do tapete. Parecem-lhe dois linguados. Agita-se taciturno, fixo neles, quando não é para eles que olha. Esfrega as mãos na cara, nos braços, nos joelhos. Está frio. Os chinelos espalmados escorregam pelo chão, nadam pelos rodapés, torneiam as esquinas, afundam-se pelos cantos – são peixes. Nadam, chapinam, afastam-se em direção ao corredor, mergulham na sombra de um lago desconhecido, profundo como um espelho. No quarto não há espelhos. Então, Sr. Álvaro, vê os peixes? Não quer saber dos chinelos, dos peixes, de mim, da vida, do destino, dos deuses. Sr. Álvaro? Quer que chame alguém? O quarto é uma bagunça de cacaréus e mofo. Sobre a mesa-de-cabeceira está um búzio partido encasacado de pó. Acho que o Sr. Álvaro não tem ninguém. Moído, arrasta o corpo para trás, descola os pés descarnados do chão, deixa tombar o corpo sobre a cama enrodilhada – os olhos cerrados, as pálpebras trémulas, a boca colada ao silêncio, os braços caídos ao longo do corpo. Apolinário, lá fora, lá em baixo, à chuva, ao vento, volta-se por segundos para espreitar a estrela que paira sobre o monte. Chove-lhe dentro dos olhos. Sr. Álvaro? Não quer ser peixe? Nadar e mergulhar no lago? Pestaneja. A cabeça enterrada na almofada a negar num balancear vagaroso. Arrasta a mão para o peito, quando os peixes regressam ao quarto, trespassam a brancura do teto como relâmpagos, atiram-se pela janela. Viu-os? Apolinário vê-os passar, velozes pelo fundo negro, sobre a floresta, diretos ao mar encrespado. Sr. Álvaro? Vira-me a cara. Aborreço-o. Afunda-se ainda mais no leito, extingue-se entre as dobras da roupa. Abandono a casa com a luz ainda acesa, novamente um ponto brilhante por detrás da cabeça do Apolinário.

Por vezes, devemos deixar fugir as ideias, devemos fugir delas. Por vezes, as ideias não gostam de nós. Vivem e crescem sozinhas, perseguem-nos, possuem-nos, são criação de outros deuses – deuses maiores. Não as compreendemos. Delas, não nos é possível falar.

Os peixes regressam. Nadam agora ao longo da estrada, pela berma. Rodeiam os passos, as pregas molhadas das mangas do Apolinário, resvalam-lhe pelas costas das mãos. Abre-as. Embatem e enleiam-se na luz do candeeiro como borboletas – duas -, intermitentes.

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