sangoma

Em África, o Sol está mais próximo, como está o céu, a noite, o capim, estão as árvores, as aves, os mosquitos, os lagartos, as sardaniscas, os sapos, as águias, as zebras, as gazelas, as girafas, os leões, os rinocerontes, os hipopótamos, os búfalos, os bois-cavalos, os javalis, as hienas, as formigas, todos os outros animais – grandes, pequenos, invisíveis. Está tão perto, tão perto, que se arreiga em nós, contamina-nos, possui-nos – nunca mais somos os mesmos, livres. Depois de África, só tudo o que é dela e que nunca deixaremos de ser – tempo, espaço, fundamento, nostalgia – gene, identidade animal, enguiço.

Assim, expugnada, não compreendi uns certos fins de tarde – repetidos, misteriosos, assustadores até -, diferentes de todos os outros. Não os compreendi então, não os compreendo ainda, passado todo este tempo. Que penitência era aquela que acontecia, que o meu pai consumava ao terminar do dia – círculos e mais círculos, ao redor de uma mesa de fórmica na sala de jantar. Em África, até os móveis simples e leves, achavam-se preenchidos de significado e energia, como o tempo, aquelas tardes feitas de voltas repetidas, somadas, unidas umas às outras sem explicação, interregno – dentro de um remoer ensurdecedor de passos recalcados, números mastigados numa contagem medonha e obscura. O meu pai era ainda novo e magro, vivo. Eu, era ainda pequena, sumida e curiosa. O mundo infinito, formado por voluteares impossíveis de decifrar, deter. Lembro-me bem, do meu pai à volta da mesa, das tentativas desesperadas da minha mãe a tentar agarrá-lo, deitar-lhe a mão, calá-lo – agitada no sentido inverso do destino. Lembro-me da infrutífera insistência, de vê-la levar um encontrão, outro e mais outro, desistir, sentar-se a um canto a lacrimejar, oprimida à espera de um desfecho desconhecido. Não me lembro das palavras desesperadas que pronunciava – preces, talvez -, apenas do meu pai, recluso daquela marcha forçada, da contagem involuntária revolvida em cuspo.

Em África vive-se tudo, mesmo o inexplicável, o inesquecível – uma espécie de mescla de sonho e realidade de que tomamos parte – experiência tatuada -, que mesmo depois de expurgada, friccionada, esquecida, perdura.

A sala era retangular como a mesa, a atenção arrastada pelo movimento repetido dos perímetros – ritmada, impelida, sacudida pelo braço balançante do meu pai, tangente à parede lisa, ao canto, à porta da cozinha, ao canto, à janela voltada para o jardim, ao canto, à porta que dava para o alpendre, ao espaço livre em direção à sala, à aresta da primeira parede onde recomeçava tudo. Um prego elevado e torto centrado nessa parede – um crucifixo levitado na inocência da cor, na tentativa de um deus. Não sei se esteve lá sempre, se existia antes, se foi colocado ali apenas na urgência daquelas tardes. Ainda o conservo comigo, aqui, com a parede agarrada, a mesa, a casa, o sangoma, o continente africano, o meu pai, mãe, o passado – tudo embrulhado numa gaveta só. Lembro-me bem do crucifixo, testemunha silenciosa daquelas tardes sem tempo, sem espaço – o pai aprisionado a um destino feito de demência e rotação. Talvez tivesse acontecido alguma coisa antes e depois daquelas inexplicáveis voltas – não me recordo. Talvez enquanto estivesse ainda a brincar lá fora, ou depois, mergulhada numa banheira de água, espuma e pato de borracha. Falta-me o princípio e o término dessas horas, com os quais compreenderia tudo. Faltou-me perguntar ao meu pai e à minha mãe, agora a vaguearem livres pelo céu. Se o tivesse feito, me tivesse sido explicado, tivesse entendido então. Não recordasse agora a minha mãe impotente, o meu pai determinado, eu entalada a espiolhar num canto invisível. Tivesse esquecido de vez aquele movimento incessante, a última dessas tardes feita de uma viagem inesperada – nós os três de repente dentro do carro, sem bagagem, sacos, bonecos, por caminhos suspeitos e desconhecidos em direção a nenhures.

Onde vamos?

Deita-te e dorme.

Como se fosse possível dormir dentro do sonho.

Os três dentro do carro, pelo alaranjado morno e abafado da tarde, o anilado da noite, o negrume do mundo. Calados até chegarmos ao aldeamento, calados durante e depois, calados sempre. O carro a reconhecer os caminhos, a resvalar no silêncio da terra, das pedras estaladas de encontro à chapa. Raízes, ramos secos, a escovarem as entranhas metalizadas – uma escova despenteada a dividir o caminho interminável em duas faces intransponíveis. A chegarmos depois de muito tempo com o carro a abrandar, a parar – um ruído esgadanhado de micaias sobre o tejadilho. Lembro-me bem disto – abrir a janela e escutar, antes do olhar delinear as formas – a voz do meu pai junto a uma palhota a falar para a noite dentro dela. Lembro-me de avistar as pontas do colmo a escalar sobre o abismo. Lembro-me de escutar o sono cacarejado das galinhas, o remexer do rebanho enclausurado, o movimento de bichos livres pelos trilhos circundantes – andaduras, guizos, mios, pios, bramidos. Lembro-me da passagem de um cão escanzelado e fugidio – os olhos iluminados -, um odor amornado a farinha, graxa, palha, penas, pó, cinza molhada sob o cacimbo. O negro do céu mais escuro e profundo, salpicado de estrelas. Eu e a minha mãe no silêncio das vozes, na incerteza dos vultos. O vidro aberto, comigo empoleirada na aragem fresca da noite, da terra, do céu infinito sobre a planície vermelha, oculta. O mundo e apenas nós – o carro, a micaia, a palhota, a voz lenta, grossa, pausada e distante do meu pai.

Para lá das perguntas por fazer, das respostas por dar, das explicações por obter – resta-me a liberdade de sentir, de julgar. Resta-me a verdade pura dos sentidos, banhada de possibilidades, verdades vacilantes, fantasias mais sólidas que a própria história. Resta-me a veracidade de tudo o que sinto e escrevo, porque nada é mais real que aquilo que se sente, nem mesmo a exatidão da própria verdade.

O carro, apesar de grande, era naquele instante pequeno demais. O sangoma, sentado ao meu lado, preenchia o espaço, vestido com tudo o que África era e tinha – peles, capulanas, penas, ossos, pau, pedras, guizos, terra, pele, cheiro, rugas, olhos. Nós os três, nada mais que fragmentos da sua complexa indumentária.

De vez em quando, o pai golpeava o silêncio da noite com uma palavra, um olhar atirado para trás pelo retrovisor. Não compreendia, não perguntava. A língua dos negros era simples como a existência – acontecia. Fixava a atenção nas luzes sobre a passagem de terra, o capim seco das bermas, uma pedra, uma raiz, um movimento de cobra. Nada mais existia para lá desse espaço, de mim encostada àquela presença imponente, carregada de significado.

Chegamos, e o sangoma desceu do carro como um fantasma dentro da hora – uma sombra largada da noite, uma ilusão jardim adentro, casa adentro como uma vaga. As luzes desligadas como se ainda estivéssemos no aldeamento, no caminho de mato, não tivéssemos eletricidade, apenas aquela presença no interior imenso da sua própria casa.

Sobre a parede, um olhar demorado. Ao redor da mesa um giro, sombrio de palavras, rugidos, uma mão negra e pesada, grande, a deslizar ao comprido na superfície lisa – rumorejos, sopros, estalidos. A mão aberta e espalmada pela fórmica, pelo areado da parede branca – rasa ao crucifixo, ao silêncio. O barulho de ossos, missangas, pedras, dados, a rolarem sobre o tampo amarelo. A minha casa, de repente a casa do sangoma – grandioso, sagrado, dependurado em peles. Depois, a porta aberta para o alpendre, o jardim, o pai e a luz fraca de uma lanterna a incidir sobre uns pés gigantes como terra revolvida, a acompanhar o caminho que o sangoma calcorreava pelos recantos do jardim. Eu, em silêncio, inexistente, de olhos postos nos gestos, nas mãos que desenhavam o ar, deslizavam pelo tronco das árvores, a cabeleira dos arbustos, as pontas dos catos, a relva, a terra, as pedras brancas que serpenteavam os canteiros, o céu brilhante e negro, infinito, pousado sobre a sua mão que abanava, tremia.

Lapha

O sangoma, a indicar uma pedra branca mergulhada na terra iluminada.

Lapha

O pai a aninhar-se, a descolar o pedregulho redondo como uma lua de duas faces – branca e negra.

O sangoma, fixo no fundo húmido, a dobrar o corpo, a esticar o braço dependurado em fitas, pulseiras, odores. A erguer da terra um frasco – pequeno e acastanhado – a erguê-lo no ar, em direção ao lado mais alumiado do céu. Dentro, dois fósforos cruzados, mergulhados num líquido transparente.

Ngiyabonga, Baba

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6 responses to “sangoma

  1. Uma narrativa da tua infância que me fez sentir que não estive em África. E por isso perdi-me no teu texto, nas tua expressões quete saíram da memória e especialmente do coração. Não sei bem porquê fiquei triste… mas gostei de sentir as tuas memórias.
    Um abraço.
    José Gomes

  2. Fico sem fôlego e revejo-me, menina ainda, dentro do carro dos meus Pais, por aquelas terras quentes, os cheiro, o pó, a língua que, tantas vezes, não entendia. A música, ai a música que, ainda hoje, ressoa nos meus ouvidos.

    Grata por este momento maravilhoso de beleza e saudade.

    Um grande abraço

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