hinom

E os homens sentaram-se todos. Ocuparam o espaço de cada degrau. Eram os Sapientes. Tinham óculos, bigode, pernas compridas, os pés entalados em sapatos envernizados, os pescoços mumificados em gravatas multicolores. Tinham os gasganetes finos e os buchos exauridos. Tinham os olhos esbugalhados, as mãos ossudas e grandes, os lábios finos e sequiosos, os dentes escovados e afiados, cintilantes sob a luminosidade dos holofotes. Tinham muita fome e tinham muito mais de pressa. Brilhavam, todos vestidos de negro – Sapientes de costas hirtas, rabos bem assentes no lajeado, espectros de luz no firmamento. Sobre o colo, cada um descansava um livro aberto, espaçoso, de onde retirava e punha ideias, no qual conjeturava leis – tudo consecutivamente. A cabeça, lançava-se e balançava-se de um lado para o outro – para cima e para baixo. Os braços, doíam-lhes de tanto escrever. Como disse, tinham pressa, e a pressa refletia-se em tudo o que faziam e que deles emanava. Tudo, tão rapidamente, tão maquinalmente, que os gestos quase sempre precediam o pensamento – anotavam, carimbavam, abriam a boca sem pensar – engasgavam-se e arrotavam desvarios – mas nunca, nunca, nunca, eram culpados disso, nem do antes disso. Os Sapientes eram intocáveis. Refletiam pouco, mas trabalhavam muito – cansavam-se ainda mais – a arquitetar, a escrever, a pensar, a mamar – cada um tinha por contingência um mamilo, que de cima descia cheio, que de tempo a tempos aterrava-lhes na boca e jorrava. Estavam bem nutridos, instalados, sentados e bem-falantes, uns voltados para os outros, uns contra os outros, em grupo, voltados para os demais. Eram, nada mais, nada menos que papagaios eloquentes sobre um poleiro escalonado, acolchoado, rumo ao céu, ao purgatório, à rendição. Para além da teta, do livro de leis que sabiam de cor, tinham ainda sobre as pernas, folhas desocupadas, livres para sarrabiscarem os cálculos que faziam à vida, à disposição das coisas e dos homens, ao destino que pretendiam disciplinar. Eram folhas avulsas, onde experimentavam e destruíam enganos que podiam denunciar ou esconder – quase sempre escondiam. Eram sempre as faltas do alheio que arrolavam ali, dos outros que não estavam presentes, que não chegaram a tempo de arranjar lugar na escadaria, sentar-se e fazer parte da prole. Dos outros que sobejaram frustrados, famintos, suados e pegajosos, atulhados sob o vão da escada, a mendigar a vez – fato, caderninho e canetinha na mão.

Os homens que não faziam parte dos Sapientes, que como tal não estavam sentados nas escadas; que não eram excedentários a aguardar sob o vão; que para nenhum destes grupos se dirigiam – eram os Clarividentes – aqueles que não reagiam à escada em ascensão, que não haviam corrido para tomar um lugar, comprar o livro, engendrar umas folhas, sequer uma caneta, uma esferográfica, lápis, giz, ardósia. Sequer tentaram encaixar o corpo na ditosa fatiota. Sequer quiseram, sequer podiam. Tão-pouco possuíam a habilidade necessária para formalidades, fórmulas matemáticas – ciências exatas e auspiciosas. Os Clarividentes, simplesmente previam sem se mexerem do lugar. Eram homens diferentes – de confiança, de confiar, porque nada queriam para lá do seu domínio lógico. Pouco entendiam das leis dos homens e delas pouco queriam saber. Apenas tencionavam viver sob a norma da vida, a equidade da natureza – o preceito do mar, das estrelas, da terra. Apenas queriam trabalhar e sobreviver, viver o amor espontâneo e acidental, contemplar os astros. De onde quer que estivessem, olhavam naïfs sobre o mundo – magnânimos, despreocupados, crentes. Tudo lhes parecia possível, até que os Sapientes explicassem tudo, resolvessem tudo – valessem o esforço de uma escadaria assim. Guiavam-se pela confiança, pelas constelações que vislumbravam da janela – o código que unificava o cosmos, que nunca iria falhar. Assim, deixavam-se estar, sentados na quina de uma cadeira, no degrau de uma soleira, de uma palete, de uma retrete, na beira de um poço, na dobra de uma cama, na borda de uma banheira, no canto de um caixote, no braço de um sofá, debruçados sobre um peitoril. Imóveis, deixavam-se estar, maçados, como uma caterva de sabujos a espreitar da janela os astros, o escadote que subia horizonte acima, decepava a face da paisagem, perfurava o céu, entrava casas adentro pelo olhar, aurículas, bocas embasbacadas. Com o corpo oblíquo, anafado – meio sentado, meio de lado, meio de pé -, a cabeça inclinada, os olhos semicerrados, a boca num sorriso desbotado – os Clarividentes mantinham a mente no mundo das ideias, a atenção no escadote encaracolado que subia, subia, e não parava – nos Sapientes que nele se duplicavam.

“Um dia, vão atravessar as nuvens e vão fazer chover – preocupavam-se, cogitavam. Vai chover, chover – previam -, uma batelada de água que vai inundar tudo – temiam. Um dia, vão perfurar o Sol e o fogo vai descer sobre a Terra. Um dia, Hinom será aqui. A escada, vai despedaçar-se e tombar desfeita sobre a Terra, sobre nós, com os Sapientes ainda sentados, entalados numa montanha de escória e lume, pedra, ferro e carne putrefacta, sangue revolto num tropel de esterco e leis” – Os Clarividentes refletiam e falavam sobre isto da janela. Barafustavam entre eles, mas deixavam-se estar, letárgicos, à espera desse dia – os rostos disformes, os ventres descaídos, os pescoços torcidos como tarraxas sem porca.

A ambição e a preguiça dominavam o mundo quando as estrelas caíram do céu. Os homens que escreviam e os homens que conjeturavam, entenderam a proximidade da hora – deitaram-se sobre o leito em chamas, mudos e resignados, sob o código oculto da natureza – o único que permaneceu de pé.

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8 responses to “hinom

  1. Minha querida, o teu ” Hinom” leva-nos a tempos remotos, de tal forma retratados! O que nos separa dos Sapientes e dos Clarividentes? Talvez a falta da sabedoria ancestral. Como sempre mais um conto para refletirmos, divinamente bem escrito. Beijinho e uma flor.

  2. “Tudo, tão rapidamente, tão maquinalmente, que os gestos quase sempre precediam o pensamento – anotavam, carimbavam, abriam a boca sem pensar – engasgavam-se e arrotavam desvarios – mas nunca, nunca, nunca, eram culpados disso, nem do antes disso. Os Sapientes eram intocáveis. Refletiam pouco, mas trabalhavam muito”

    Diria que este conto não poderia iniciar-se com a hipercodificada fórmula: “Era uma vez, num país distante…

    Muito interessante!

  3. Pois é Manuela. Mais um belo conto a juntar aos dois anteriores que não comentei, mas que gostei bastante. Este “Hinom” retrata-nos aquilo que somos e já fomos… sem deixar um lugar de esperança ao Futuro. Apenas homens Sapientes, intocáveis… os Clarividentes, acocorados no seu canto, esperavam e farejavam a sua vez… de Futuro, só o código oculto da Natureza.
    Um abraço,
    José Gomes

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