kiápak

O dia acordou branco. Branco e vazio. Branco, retocado de transparência. Há dias assim, de mistura vaga e indefinida. Dias em que imaginamos a alma à deriva sobre calotes de gelo, o corpo queimado, soldado à pele álgida de um icebergue. São dias gélidos de veleidade branca. Dias de razão intermitente, sucumbidos aos sentidos. Os sentidos corcovados ao involuntário. Querer, é um estado desaparelhado. O fundamento, motivo de identidade desconhecida. Não importa. Nada importa em dias assim. Nada, quando ser é mera tangência. A existência, uma circunstância imprecisa. Talvez importe mais procurar-me, calcular onde estou, descobrir-me dentro desta passividade desbotada. Resgatar-me ainda eu, fragmento indistinto, possível.

Acerco-me do mar, da essência, da lembrança primordial da espécie. Mergulho nua no Atlântico e desembarco trajada em Ammassalik. Acontece assim, porque quero – agora -, porque tem de ser. Calculo que esteja por lá. Lugar irrepreensível para esbater o meu branco, diluir o vazio. Por lá, uns dias – por isto, por aquilo, por qualquer coisa -, o tempo que a vontade quiser, as horas compreenderem, o acaso anuir. Encavalito-me no parapeito de uma janela e deixo-me estar, gázeos sobre o porto, costas para a indiferença, a distância, o deserto de neve – a solidão impraticável. Espreito os barcos a entrar e a sair do porto. Pouco mais interessa que este vislumbre, este cuidar desarmado sobre o branco estendido, descansado sobre a neve, buliçoso sobre as rochas, estilhaçado sob as chuvas presas, flutuante nos puzzles desgarrados. Faz frio. Gela. Quero-me tripulante fantasma do barco colorido encalhado na neve – aquele além -, encimado por nuvens esgaçadas por uma aura freática, lancinante, tangente ao lácteo envidraçado das córneas. Inspiro e dói. Expiro e queima. Enrolo os braços num abraço inútil. Não estás cá, não existes. Permanecer, golpeia o ser, esventra-o sobre o branco ávido de um motivo, da liberdade inteira de uma folha imersa em perplexa disponibilidade. Morrer é uma espécie de vida. Neste presente, sou de outro tempo, janela de um plano disperso sobre uma verdade igual. Não interessa muito perceber isto, esta cogitação que acontece, este exercício demente. O que é, é. De onde chega pouco importa, apenas que está cá e que fica. Partirá quando não restar nada – nem porto, nem barco, nem neve, nem distância, nem eu aqui a divagar, a olhar, a diligenciar, a escrever – autómato a preencher as horas. Excedo-me. Gelo, no glacial onde descanso a raiva, o desnorte. Atiro-me ao chão invisível sob o manto da paisagem fragmentada de Ammassalik. Quero ser estátua aqui, pedra além, corrente submersa e invisível. Dentro do frio, uma mornidão mantém a vida, o sentido, o entendimento suspenso, a energia colorida das auroras boreais que me faltam.

Icebergues desenham uma paisagem em eterna mutação – fantasia que mingua e volta a crescer -, como a vontade, a dúvida, a certeza sempre arremetida, intermitente. Se calhar, fiz mal em vir. Espero e demoro – por mim incorpórea que não me acho –, precisada de cor, evidência. Partirei só depois de tudo isto – seja lá o que isto for. Partirei quando o pigmento preencher este argênteo que me possui, a cor das palavras impronunciáveis, longínquas a ecoar nas cavernas geladas, na água presa entre os estreitos, na corrente submersa, alegre com o destino. Chamo-me no eco do silêncio, na mudez de um sonho – o meu hálito solidificado a embaciar a perspetiva.

Avisto um cão enleado no frio. Corre sem destino, como se o branco do gelo lhe dominasse o corpo, lhe fervesse o sangue, exaltasse a danação. È um borboto raivoso na paisagem – deslocação, corpo fumegante. São pulos enterrados, presos, retardados, esbaforidos, latejantes. A vida por um fio, suspensa – camara-lenta. Por instantes, o cão é o coração da paisagem. Fora dela, o meu coração deslocado à procura de qualquer coisa – um abrigo -, hesitante, daqui. O cão, quase cor – eu, quase bicho, no fundo buliçoso do horizonte. Não sei como ainda o vejo, desunido da própria identidade, a desfasar do resto, do meu interesse nele. Tem a pelagem cor de neve enfarruscada, varrida. Quando está voltado para aqui, vejo-lhe a língua dependurada, fumegante, quente, húmida – índigo a mesclar de cor a claridade. O cão é a paisagem em que me movo. Eu, quem o incita, daqui. Quando alcança as rochas, dilui-se nas sombras e deixo de vê-lo. Agora, é uma raposa que se intromete, evade. Novamente o cão. Vê-a. Persegue-a sem sentido, horizonte fora. Acompanho-os. O cão, porque a raposa lhe foge. A raposa porque é perseguida. Sigo-os sem nunca conseguir alcançá-los, prevê-los. Nem mesmo nesta aldeia parada, cercada de impossíveis. O cão corre, a raposa foge, eu vejo. O cão leva um avanço – começou primeiro a corrida. A raposa não faz contas ao tempo – não tem tempo a perder -, apenas corre, até transformar-me num ponto amarelo cada vez mais pequeno, mais branco, parte do imutável cerco. Um ponto amarelado como aquele que finaliza esta frase que o meu olhar escreve.

Estas viagens são distantes, mas curtas – memoráveis, mas esquecíveis. Novamente o cão. Vem para cá. Vamos, digo-me. Ainda não. O branco é frio como o gelo, como a angústia das palavras por dizer, como a cegueira. O branco é frio, por isso maravilha. O branco, incita à criação, ao preenchimento. Enquanto aguardo, vigio a cidade – a entrada e a saída de barcos no porto, as rochas, os tubarões esventrados a secar como sabres sobre o gelo. Procuro o cão que desaparece e reaparece, à medida do meu interesse. Ah! Está ali outra vez, sob a sombra das bandeiras de tubarão envidraçado. Ainda segue a raposa, a imaginação dela dentro da minha idealidade. Vamos, digo-me. Espera. Regressar é tão rápido que ficar aqui mais uns segundos, não impedirá o regresso. O cão avança. Avançam agora os dois, a par – aliados contra mim. Escorraçam-me. Sou presença indesejável neste lugar. Correm os dois. A cada pestanejar estão cada vez mais perto e eu cada vez mais longe. Crescem no branco à medida que me extingo. Não quero sair de Ammassalik. Passaram pouco mais que minutos, desde que aqui cheguei. Ainda não assentei os passos fora da soleira, enterrei-os na neve, perdi-me no gelo, embarquei de kayak, deslizei de trenó. Mal cheguei e já sei de um Tupilak na mão. O cão cada vez mais perto. A cada pestanejar eu cada vez mais longe. O cão e a raposa, mais perto. A brancura da neve cada vez mais manchada de medo dentro do meu alcance. Mal cheguei e já sei de um Tupilak apertado num gesto a caminho do mar. Vamos. Espera. Um Tupilak na mão, cada vez mais próximo da corrente. O cão, a raposa – um só -, cada vez mais próximo, cada vez maior – mais pele, mais olhos, mais dentes aguçados, narinas dilatadas – bafo. O cão e a raposa cada vez mais um, cada vez mais monstro. O Tupilak a soltar-se do movimento, a mergulhar na água gélida, amaldiçoado. Vamos. O Tupilak – osso afogado no meu degelo. Agora só olhos, nariz e boca – absurdo. Vamos. Agora as minhas mãos a largarem o peitoril da janela sob o olhar do porto, as casinhas coloridas de Ammassalik diminuídas, diluídas na paisagem que foge de mim recuada. Icebergues liquefeitos, água, névoa. O cão e a raposa transformados – Kiápak, colado à vidraça – olhos, nariz, boca, pele. A janela preenchida pelo seu corpo gigante, disforme como o pavor da sua cara espelhada em mim. Fujo – mais sobressalto que fundamento. O Tupilak mergulhado em mim. A ilha. O monstro.

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