tot

Pai, faz um desenho. E o pai ri, feliz por pedirmos – a cara gorda, redonda, suada, cómica.

Animado, afasta a cerveja sobre a fórmica amarela e pega sem jeito numa caneta – sacode-a. Dá cá – estende a mão grossa sobre o papel, espalma a folha sobre a mesa, alisa-a e começa a desenhar. Primeiro, um ponto firme, que quase fura o papel, depois, uma linha trémula que cresce, desliza lenta, hesitante, cabeluda sobre o branco lustroso. Já sabemos o que é, já sabemos! É o mesmo de sempre. No entanto, nunca desistimos de pedir, de assistir, querer, esperar, sonhar. Temos a certeza de que, em cada vez que acontece, realça-se um pormenor novo, por pequeno e insignificante nos pareça. Faz um caminho! E um atalho surge na brancura do espaço reconhecível, já em mutação – transfigurado, renovado sob o nosso olhar – melhor, mais completo, infinito. Um pinheiro, um pinheiro! E o pai semeia logo um, que cresce, outro, um pinheiral. O pai, desenha tudo o que lhe pedimos, desde que esteja lá o pássaro primeiro. Como se só depois dele, o mundo brotasse, ganhasse asas, tudo o resto fizesse sentido.

O pai, começa sempre pela curva da cabeça – pequena, pardacenta. Só então, estende a linha pela sinuosidade do pescoço – longo, estreito, firme. O pássaro… o pássaro – murmuramos entre a cumplicidade de um olhar -, enquanto o pai, ausente, prolonga já a superfície das costas – reta e delicada, cuidadosa, voltada sobre a margem direita da folha, a desaguar na cauda como uma cascata espaventosa, densa, eternamente suspensa. Nós gostamos de desenhos como o pai gosta de pássaros. O pai, que completa agora a cauda, encarvoa as penas, descola da folha a caneta para mudar de flanco – passar da direita para a esquerda, onde o aguarda o bico – longo, fino, preto -, a seguir, o gargalo dilatado, a saliência do papo afiado e empinado. Esta quase, quase, a aparecer o pássaro que já sabemos de cor – o mesmo, antes do peito entregar-se ao alinhamento do corpo, unir-se ronceiro e espetado às penas da cauda solitária, incompleta, sarrabiscada, a aguardar no seu lado parado de impaciência. E as patas? – queremos saber, desnecessariamente -, quando a caneta já pende do corpo em direção ao solo despido, demorada na hesitação de um joelho invertido, nó-cego de uma das pernas – esguia e estirada -, no nó da outra perna inflexa, dependurada, as garras suspensas e frouxas como bigodes queimados e derretidos. Está quase, quase! Para finalizar, e sempre – o olho –, lúzio negro, enigmático, insondável. O olho, que faz renascer a ave sob o nosso olhar debruçado, a possibilidade contida na tinta, o desprendimento da folha. Olá, pássaro! E percebemos juntos que acordou subitamente de um movimento imperceptível, de um pestanejar faminto e prisioneiro. Tem fome pai, tem fome! E o pai apressa-se a despejar uma batelada de milho que extravasa a folha – pintas rápidas, soltas, sobrepostas, desarrumadas, uma sobre as costas da minha mão – ai! Se calhar, tem sede pai! E, nasce logo um lago, uma pedra, capim. E, ele voa? E no corpo despido, crescem penas apressadas, pintas atiradas, arrastadas como chuviscos – um emaranhado rebuscado de penugem azul e transparente, mais sombria e carregada na extremidade da cauda.

O pai, gosta de pássaros, de toda a bicharada do mundo. O pai, ama África, a natureza mais do que ama os homens, às vezes a família. Talvez, porque prefira o silêncio e a solidão, ao amor. Porque sai muitas vezes sozinho e demora-se na floresta. Bebe e perde-se pelos caminhos encruzilhados das plantações de cana-de-açúcar.

O pai, sai muitas vezes de madrugada para caçar. Às vezes, quando a mãe deixa, eu também vou. Sento-me no banco da frente do Valiant e acompanho-o até dentro da floresta, até junto das margens das lagoas, até dentro do coração da natureza. Juntos, partimos à caça de rinocerontes, gazelas, coelhos, pássaros, cobras – qualquer coisa. O pai, tem uma boa arma – diz -, excelente pontaria – acerta nas papaias a muitos metros de distância. Porém, fora de casa, não acerta em nada para lá do vento, das folhas e dos troncos dos pinheiros, das pedras que faíscam e gemem quando atingidas. Ainda assim, não desiste. Talvez, por culpa deste incontornável azar, não me importe de acompanhá-lo. Afinal, também eu venero a natureza, a frescura das madrugadas silenciosas, o ruído solitário do movimento, o estilhaçar da terra e das pedras sob a chapa e os pneus, a janela escancarada, as nuvens de pó a perseguir-nos, o vento na cara, a aragem fresca, a atenção agarrada às bases dos pinheiros, à obscuridade, às copas imersas na bruma, ao pássaro pernalta, algures camuflado na escuridão branca do céu – livre, a planar.

O motor do carro, estrondeia mais dentro dos ecos da floresta. Enquanto avança, escuta-se um remurmurejar chegado do escondido das árvores, da planície oculta – pios. Algumas asas, sacodem-se e soltam-se das cabeleiras majestosas a reclamar sossego. É cedo, e o horizonte ainda se acha estremunhado. Respiro a humidade da terra e o aroma dos pinheiros, a frescura da madrugada sacudida. As asas, espreguiçam-se e avançam, mas retrocedem ao lugar de onde saíram e já sabem de cor. Apercebem-se do engano – que vão ter de esperar um pouco mais pela manhã, pelo Sol ainda recolhido na incerteza da hora.

Chiu! Chegamos. Agora não faças barulho. O pai, pretende surpreender a bicharada, os pássaros ainda agasalhados na noite. Como tal, rodeio o carro em pontas – uma mão na boca para conter a tentação de falar, o barulho da respiração -, enquanto o pai retira a arma da bagageira, baixa a mala com a delicadeza de quem agasalha um corpo adormecido. Chiu! – para mim muda, com um caderninho apertado na mão, um lápis – uma vontade incontrolável de dizer que vou desenhar uma zebra, um hipopótamo, se vir algum -, presa ao aviso – Chiu! -, que me reprime o discurso, impele-me a um monólogo absorto, um diálogo de olhares amotinados entre mim e a atenção dissimulada entre as cabeleiras remexidas das árvores. Vamos – e afastávamo-nos em direção às sombras mescladas da floresta. O pai, de caçadeira em punho. Eu, de caderninho embrulhado na mão, o lápis, uma pedra, uma folha, um escaravelho seco e vazio, uma asa de borboleta já espalmada entre as páginas nuas. Chiu! – e um tiro ecoa na paz. Afasta-se e recrudesce dentro do eco prolongado, acabando por desaparecer. A seguir outro, e outro, a esmo – comigo a desejar que nunca acerte, nem mesmo no pássaro de tinta algures escondido e atento. Chiu! – e outro escapa ao mesmo tempo que descubro com o pé o solo húmido sob a caruma – procuro bichos, cascas, fungos, sapos listados.

O pai dispara ininterruptamente, até terminarem as balas, o Sol furar por entre as copas das árvores e todos os bichos fugirem, todos os pássaros voarem, a luz encimar a lagoa como um espelho sobre a certeza das coisas, o bocejar ruidoso do hipopótamo fazer-se ouvir. Dispara até não sobrar mistério na floresta, apenas ele, desanimado a justificar-se: São espertos os bichos, muito espertos! E, ainda bem que o são – penso, apaziguando a audácia do pai.

Vamos – diz -, comigo a desenhar à pressa os olhos do hipopótamo mergulhado na folha de papel como dentro da lagoa quieta. O pai a largar com força a bagageira com um sorriso dececionado, a beber uma cerveja num só trago. Eu, com o desenho terminado, a balançar o olhar ao sabor do vento e dos ninhos dos tecelões-mascarados, como peras de colher à-mão. Alguns, quase a roçar a água da lagoa. Queres um? – o pai já a afastar-se do carro, a embrenhar-se no capim alto, a esticar-se todo para esgaçar de um ramo um ninho solitário, estragado. Eu a pensar que sim, mas a querer que não, na incerteza do gesto – sem voz, mas com vontade – sim. O pai já com ele na mão, a estender-mo. Agora, já podes dizer que caçaste alguma coisa! Eu, com um sorriso indeciso a segurá-lo com cuidado, a enfiar-lhe a mão afunilada, a medo, a sentir por dentro o entrançado de palha, o ar amornecido, um ovo quente do tamanho de uma amêndoa sarapintada. Oh!

Pendura-o pai, por favor! Depressa! Não o quero.

Isso, não é possível agora. Nem que conseguisse, a mãe já não o aceitaria de volta.

Porquê?

Porque a natureza é assim e não precisa de explicações. Agora é teu e pronto!

Meu, como a tristeza de tê-lo querido – ao ninho estropiado pousado no regaço, no silêncio do caminho para casa, a janela aberta sem mim. Eu, prostrada, espólio da natureza. O pai – o corpo desconhecido do hipopótamo submerso na folha, a conduzir sorridente, esquecido, a assobiar com a alma desgarrada de um Íbis-sagrado, pervertido – Tot, desvirtuado.

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One response to “tot

  1. Manuela,
    Uma narrativa deliciosa. Criatividade e talento!
    Tens uma forma de escrita que nos prende à leitura e gosto muito dos personagens que crias!

    Um beijinho!
    Albino Santos

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