coleção

Era o tempo em que o sonho preenchia o espaço da própria realidade.

À espera, do lado de lá da porta da cozinha, do mundo espontâneo, vejo-o – alto, escuro, ansioso, agitado -, na transparência quadriculada da rede mosquiteira, uma sombra – o Agostinho matizado – na face, um sorriso do tamanho de uma banana espalmada. O olhar esbugalhado, os dentes brancos contornados pelos lábios carnudos esborrachados, significavam uma coisa boa – uma tartaruga nova, outra. Apresso-me a abrir a porta, a estender-lhe a mão – depressa. A mão pequena e branca de encontro à mão enorme e preta, que agarra e espreme, puxa, leva-me com ela, o corpo franzino pátio fora, os pés descalços e leves como asas jardim adentro, até nos vermos os dois, chegados e parados junto ao buraco arredondado – fundura de meio braço, largura de uma perna inteira – a nossa caixa de infinda coleção. Tinha a certeza de que tinha apanhado outra. Vi-a logo – destacada do grupo. É grande! A menina gosta? Ajoelha-se para chegar ao bicho recolhido a um canto da cova, pegá-lo e erguê-lo para mostrá-lo de perto. A tartaruga assusta-se e começa a estrebuchar em pleno ar – crava uma unha na mão frouxa do Agostinho e solta-se do jugo tornando ao fundo cavado. Oh! Tapo o susto com as mãos. É dura, não lhe doeu nada! Não? Não. Aninho-me para espreitar melhor. Já se mexe outra vez, movimenta-se em direção à parede – quer fugir. È mesmo grande! Ajoelho-me e estico o braço para chegar-lhe, fazer-lhe uma festa. Era a maior das quatro – a mais escura, trabalhada, montanhosa.

Todas as manhãs eram feitas de tempo, espaço, diferenças dentro de eventos repisados – o Sol recortado no azul de vinil do chão da sala, relâmpagos sobre as plantações de cana, trovoada sobre os telhados de zinco, aguaceiros a sacudirem o pó, rios a crescer nos carreiros, a soltar pedras, sapos, saraivadas, cheiro a terra aquecida, do jardim o perfume de relva aparada, do manacá o aroma imutável, inesquecível, disperso pelo nevoeiro do rio que sobe até à estrada. O som dos patos-bravos a cruzarem o céu limpo – À, À-À, À-À. O sabor das torradas, do chá com leite mesmo antes do sorriso franco do Agostinho chegar à entrada da cozinha.

A menina gosta? Gosto muito. Nós os dois já estendidos, deitados, um de cada lado do buraco das tartarugas, calados, simplesmente a olhar, a rir, a mexer. Com a barriga espalmada na erva fresca, as pernas esticadas sobre o capim, as pontas espetadas dentro e fora do vestido, uma formiga ou outra de passagem, raramente uma picada inconveniente, uma sapatada sacudida sobre a própria carne. A coleção crescera. Mantê-la era uma despreocupação, uma questão de tempo, de destino. Era difícil conservar uma coleção de vida, dentro de uma caixa de terra sob uma tampa transparente de céu. Sabíamos isso – da impossibilidade de sermos donos do que é de ninguém. Importante era desfrutar a vida enquanto era nossa, antes que nos escapasse como uma tartaruga – cova acima, erva abaixo, rio adentro, serra fora. Achas que esta também vai fugir? Claro, um dia destes.

Era um tempo sem medida, num espaço sem limites. A mãe a estender roupa eternamente, o cheiro a sabão. O pai sem camisola, suado, gordo, com uma cerveja na mão, duas, três – debaixo das bananeiras a contar os pombos verdes dentro da gaiola gigante. A mãe com as mãos frescas e limpas, um sorriso de roupa lavada, o olhar pousado sobre as flores, as árvores, um enxame afastado, um besouro ruidoso que cruza o estendal, uma lagartixa no trono da abacateira a concordar eternamente, o guizo de uma cobra, o ronco de um hipopótamo distante. A mãe a olhar para o pai com um sorriso, um sorriso voltado para tudo, para todos, para dentro, até para o abismo.

Com os queixos suspensos sobre a coleção, acompanhamos em silêncio o movimento imperceptível. Deslizamos os olhos pelas linhas das carapaças, pelas cores, pelas escamas das patas visíveis, pelo bico espetado e demorado numa casca de fruta. Esticamos os braços e mexemos, apalpamos, deslizamos as mãos abertas sobre as carapaças rugosas, secas, poeirentas, rijas – puxamos por uma pata suja que se retrai e faz recolher todo o resto. Sobre o fundo castanho de terra remexida – raízes, cascas de manga e papaia. Elas comem isto? Elas comem tudo, até crocodilos! Não comem nada! Comem, comem. Não comem nada! Comem. Aquela certeza na voz, aquela irritação no olhar, confirmava uma verdade indiscutível. Aquelas tartarugas escaganifobéticas, comiam crocodilos! Quatro feras, terríveis, indomáveis – uma recolhida na casca, uma parada sobre um chiqueiro de cascas, duas aflitas e desequilibradas a esgravatar as paredes côncavas.

Era o tempo da calma esconder grandes tumultos. Era o nosso tempo de paz dissimulada.

A menina não se zanga! Não estou zangada. Elas não são más, são mágicas! São? São. Maus são os homens e a ganância. Um dia, uma igual a esta – aponta a maior e mais escura -, salvou-me a vida, ajudou aqui o Agostinho a atravessar os montes Libombos, aqueles ali, que escondem Moçambique do lado de lá. Ajudou-me a atravessar o rio.

O rio ficava lá em baixo, calmo, paciente. O rio que por vezes se enfurecia, crescia e levava tudo. Um dia levou uma ponte, carros, um machibombo cheiinho de gente, um homem com uma bicicleta ao ombro, um piano, uma máquina de costura, as vacas todas do italiano que tinha os óculos presos com um elástico, que casou com uma preta gorda, que era feliz, que ficou sem nada mas que ainda assim sobreviveu. O rio não obedecia à vontade dos homens como os homens não atendiam às necessidades da natureza.

Um dia, uma tartaruga igual a esta, ajudou o Agostinho a atravessar o Usuto. Falava dele como se falasse de outro.

Deitados sobre o capim encaracolado na bordadura do buraco, dependurados sobre o fosso, tudo era possível, tudo era verdade, tudo era sonho até ao dia em que o Agostinho partiu para África do Sul, para trabalhar numa mina. Fechado numa cova maior, mais funda, gigante, espero que tenha resistido, escapado com vida à coleção de homens.

A menina não acredita? Durante muito, muito tempo, aqui o Agostinho andou perdido no mato. Já estava quase a deitar-me no chão, a entregar-me aos bichos quando ouvi um barulho. Um barulho? O que era? Era um choro – uma tartaruga que chorava sobre uma pedra. Uma tartaruga? Não acredita? Esfregava os olhos com uma das patas cheias de terra e erva – assim. Que tinha a tartaruga? Não tinha. Não tinha nada. A guerra e o fogo entraram na casa dela e destruíram tudo, também a família – pai, mãe, irmãos, tios. Teve de fugir da queimada, como eu tive de fugir dos homens, sem nada, sem comida, sem água, com medo. Atravessámos juntos o mato. Ela sabia de cor todos os caminhos – tinha um mapa desenhado nas costas, como este aqui. Pega numa das tartarugas. Os montes Libombos, o rio Limpopo, Usuto, Umbeluzi, Incomáti e outros. Sabia de cor todas as picadas, todos os carreiros longe das chitas e dos leões. Não acredita?

Uma noite o Agostinho caçou uma jiboia que entrava no galinheiro para roubar. Meteu-se lá dentro e lutou com ela. Segurou-a com os pés e as pernas e com uma enxada bateu-lhe tantas vezes até que a matou. Depois, esfolou-a e dependurou a pele esticada na entrada da garagem.

Prometi-lhe comida e ela prometeu-me paz, levar-me nas costas até ao outro lado do rio. Ela também queria paz, por isso íamos na mesma direção. Então, ela desceu o monte comigo até à margem do Usuto, onde a sua carapaça cresceu, cresceu, até eu conseguir subir e sentar-me nela. Depois, meteu-se devagar na água e nadou, nadou, nadou, até à outra margem, até aqui – ali em baixo. Ainda lutou contra crocodilos e venceu. A menina não acredita?

Um dia o Agostinho apanhou uma mamba verde no limoeiro. Matou-a com as próprias mãos.

Mostra-me a tua mão. Estendo-a. Uma unha rija desenha um sarrabisco. Fazes-me cócegas. Os olhos mais vermelhos ficaram mais abertos antes de uma risada gigante que ecoou dentro do buraco. È um mapa, menina! Agora está desenhado na mão – um mapa como este aqui. Pegou numa das tartarugas e encostou-a ao meu nariz. Olha bem, menina – para aqui e para a mão. São mapas, para que nunca te percas, nunca te esqueças do caminho, de quem és. Não acreditas?

Um dia o Agostinho sobreviveu. Com doze anos atravessou as montanhas descalço, sozinho. Os rios, nu. Perdido pelo mato, resistiu noites e dias, sem comida e com medo. Ainda assim teve sempre na cara escura um sorriso doce como uma banana espalmada.

Acredito, Agostinho, acredito mesmo.

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