panapaná

As borboletas incandescentes são feitas de uma matéria mais ou menos volátil, luminosa e inexplicável – quase cor, quase chama, quase forma, quase corpo, quase transparência –, como quase tudo, quase nunca. Quase sempre, enquanto voam, deslocam-se pelo ar aos solavancos – para baixo, e pupa, para cima -, uma espécie de impulso repentino, instinto primitivo que não controlam nem precisam de perceber. Acontece simplesmente e pronto – vivem. A existência e a permanência, são as únicas razões de ser e de voar – provocar o ímpeto que assiste a todo e qualquer súbito avistamento.

Todas as borboletas incandescentes são por todas as razões desconhecidas, réplicas de um projeto original – justificação bastante e cabal para que existam, germinem, cresçam, multipliquem-se. Uma, algumas ou numerosas – unidas, alinhadas ou dispersas, pelo negro da noite ou contra o azul congeminado – flutuam na direção do sentido do nosso olhar num voo injustificado e incompreendido, porém determinado e inalterado. São assim, e nada há a fazer contra uma ordem pré-estabelecida e universal.

Quando as avisto, já lá estão, no caminho dos meus olhos. Brilham, levantam as asas numa fração de segundo – estremecem o corpo como uma fagulha – baixam as asas até tocarem  uma na outra numa palma surda. Para cima – paragem milionésima – para baixo. Para cima – paragem milionésima – para baixo. Para cima e para baixo – para cima e para baixo – cima e baixo – cima e baixo, sempre. Brilham e repetem o movimento sacudido numa direção qualquer por qualquer motivo. Não interessa para onde vão, porquê, para quê – apenas que voam, brilham e acontecem, céleres.

As borboletas incandescentes fazem tudo isto a todo o tempo – sós ou em panapaná. Quando estão próximas, reproduzem os gestos umas das outras. Quando afastadas, reproduzem-nos longe de perceberam a presença, a réplica do voo das suas semelhantes. Se não soubesse tratarem-se de borboletas, diria que são peças formatadas de um instrumento qualquer – componentes eletrónicos ligados entre si por filamentos invisíveis que obedecem em simultâneo a um único comando, num espaço indefinido em contínua atividade. Diria que são reflexos em espelhos de vento encruzilhado.

As borboletas incandescentes têm asas recortadas como meias-luas, brilhantes como estrelas. Quando voam e sucede o esperado salto, as asas atravessam o ar, a luz atrasa-se num rasto que não deixa perceber bem onde fica o corpo – se em cima, se em baixo, se ainda lá. Quando estou a alguma distância, parecem-me pirilampos – só que maiores. Estrelas – só que menores, como lascas de mar-de-pérola quando estou mais perto. Só quando atravessam o céu contra a luz vermelha do Sol, é que percebo melhor os contornos da sua forma – o desenho das asas como leques espalmados, sombras chinesas agitadas por detrás de um biombo de papel. Por mistério, coincidência, fatalidade ou sorte, sempre que avisto uma ou mais destas preciosidades, nunca tenho a jeito uma máquina fotográfica, um telemóvel capaz, sequer uma testemunha crível que confirme a veracidade desta existência singular. As borboletas incandescentes camuflam-se em tudo quanto brilha, principalmente no fogo. Esvoaçam desapercebidas entre as chamas das fogueiras, entre os rastos amalgamados das luzes dos carros, dos semáforos, dos néones das cidades, misturadas às labaredas que devoram hectares de serra no verão. Penso que seja por culpa das borboletas que muitos se sentem cativados pelo fogo. Atraídos pelo  brilho enfeitiçado, querem ver crescer as mariposas, querem vê-las fugir.

Nos dias de aniversário, quando se acendem as velas, as borboletas dão o mesmo salto no topo de cada marco de cera – balançam as asas e rodopiam o corpo sobre o bolo, ao som da música e das palmas. Depois, porque têm medo de ser levadas pelo sopro, enrolam-se e extinguem-se num flato queimado.

Também costumo vê-las dentro dos olhos de algumas pessoas, quando me demoro demais. Sinto então uma espécie de soluço no peito. Penso que sucede quando as borboletas dão aquele salto. Nesse instante, engulo uma borboleta inteira – vêm-me lágrimas aos olhos, entala-se-me o peito, um nó estreita-se na garganta. Sinto que as asas voaram até dentro de mim, mas que o corpo do bicho deixou-se ficar embargado no medo – que aconteceu uma espécie de metamorfose invertida que apenas se extingue com o esquecimento.

As borboletas incandescentes são quase como as ideias, por vezes demoradas e esquivas, por vezes despropositadas e verdadeiras. Por culpa delas, vivo atrás de panapanás como os incendiários.

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