fada

Havia uma fada no colégio – juro. Uma fada alta como uma amoreira, com os braços longos como ramos, mãos ágeis e livres como folhas, olhos profundos como frutos, lábios carnudos e descansados como lagartas estendidas à sombra. Os cabelos eram longos e finos, dourados e esvoaçantes como capim de Inverno. A varinha que segurava sempre, que agitava delicadamente a desenhar galáxias momentâneas, era feita de cristal, com uma estrela eternamente a cintilar. Algumas vezes, a estrela parecia querer fugir, voar para o céu, mas regressava sempre, mal a fada descansava a mão, por segundos deixava-a quieta. Juro. Juro tudo isto e juro mais – que vestia um vestido comprido, armado, de princesa, azul-claro como o céu por cima do colégio nos dias mais quentes. Um vestido delineado a luz, áureo como o Sol quando é mais prata que ouro, quando é mais luz que chama. A rodear o corpo da saia, rendas trabalhadas como teias de aranha arrepanhavam o pano, desfaziam-se e refaziam-se como ondas a cada balanço. A fada era bela, perfeita – a fada deslocava-se como o ar -, passava pelos orifícios mais apertados das paredes, pelas frestas mais estreitas das portas e janelas – emagrecia até ficar mais fina que um cabelo – invisível -, passar e voltar a crescer do outro lado de outra coisa, tão depressa que parecia eclodir do nada, repentina como o pensamento, inesperada como o tempo. A fada surgia a qualquer hora, tanto de dia como de noite – debaixo das camas do dormitório, detrás das portas das casas de banho, do interior da capela; no jardim do colégio – detrás dos troncos das árvores, aninhada entre as sebes, os catos, as roseiras. A fada camuflava-se em tudo. A fada ria-se sempre porque estava sempre feliz. Os seus risos misturavam-se às risadas das crianças do colégio, aos ralhetes das freiras no refeitório, aos assobios do vento nas janelas, ao chapinhar da chuva nos beirais, ao rebimbar dos trovões na escuridão. A fada tinha fé nela própria, no poder da magia. A fada sabia tudo – como era importante para mim, como me sentia importante para ela. Quando estava triste, sozinha, pensava e ela aparecia logo. Ela estava sempre comigo, dependente de mim, mesmo quando eu não sabia da sua presença. A fada existia sempre como a minha vontade de segurá-la. A fada era muito mais do que uma entidade mágica – era o meu desejo agarrado à vida, às coisas -, a razão pela qual não podia temer o mundo, desistir. Amava-a tanto, que nutria por ela a mesma grandeza de amor que de medo de perdê-la – um dia sair do colégio (que sabia iria acontecer), ela ficar, deixar de vê-la, esquecer-me sequer que existiu. Resolvi por tudo isto, antes de tudo isto acontecer – nomeá-la, batizá-la como minha, gravar o seu nome em mim e em tudo o mais que me pertencia, assegurar-me da sua lembrança para sempre. Pensei em todos os nomes – comuns, invulgares, surpreendentes, irracionais -, e muitos pareceram-me poucos, poucos pareceram-me lícitos. Nenhum suficientemente grandioso, completo, ajustado – porque todas as pessoas de todos os nomes que conhecia em nada podiam comparar-se com a fada, com a sua beleza inigualável, com o seu poder incomensurável, com a sua amizade incondicional de fada. Procurei nos símbolos – na natureza primária de todos os nomes -, nos números – na natureza imutável, incontestável e matemática do mundo -, na fada – na forma física da sua existência, na forma imaterial da sua alma, na razão da sua existência -, nas palavras – na gramática e na elasticidade de todas as letras -, em mim – em todos os caminhos, do sensível à conceção da ideia, à voz precursora do nome, à geometria do número, à perfeição da essência, ao símbolo. Procurei em tudo, mas foi o nome que em tudo me encontrou – denunciou-se, memorável e completo em mim – um número -, capaz de aconchegar-me, transportar-me do passado até aqui, ao futuro e para além dele. Um número, um nome, tanto meu como da fada – 89, dos dois. Fada89, ficou, desde então e até hoje, até agora em que penso nela, recordo-a, chamo-a e não vem. A fada não se importou de ter o nome igual ao meu número do colégio – pelo contrário, agradou-se muito. Fada89, disse-lhe – chamas-te assim. Entendeu. O seu nome eternizado, bordado a ponto cadeia em tudo – uniforme, cobertores, lençóis – até no canto dos panos da louça que bordava aos domingos junto ao campo de jogos. Eternizado numa simbologia nova, privada, exclusiva – a fada repetia-se em tudo, tatuada em mim para lá do percetível, do crível, do provável. A fada que transpôs o possível e tornou-se real – alta como uma amoreira, com os braços longos como ramos, mãos ágeis como folhas, olhos profundos como frutos, lábios como lagartas estendidas à sombra. A fada sorriu e sentiu-se livre. Desde que se tornou verdadeira, deixei de vê-la. Dela resta-me apenas a forma, o símbolo, o número, a lembrança do que foi, a falta que me faz.

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