cegate

Estou neste momento em Cegate, o deserto possível, o maior dos desertos. Cegate, que aglomera a infinidade de todas as areias, a firmeza de todas as pedras, a mansidão de todas as dunas, o refrigério de todos os oásis, a aridez de todos os mundos, que alberga a subsistência do cosmos.

Em Cegate reina o Sol, reina o pó, reina o vento, reina a míngua, reina a sede, reina tudo o que existe e reina tudo o que está ausente, porque tudo o que não existe é mais pensado que todo o resto – o pensamento é a primeira verdade – o que não existe à primeira impressão é o que efetivamente é real. Em Cegate reina a demanda pelo abstrato na probabilidade do concreto. Em Cegate está a resposta à pergunta. Em Cegate a existência é feita de areia, vive misturada nos grãos soltos do solo, erguida no ar pelo vento, presa nos diabos-de-poeira, enrolada nos novelos das carcaças vegetais emaranhadas, nos remoinhos de pó, soterrada nas profundezas mirradas dos poços. Os transeuntes de Cegate sobrevivem enredados uns nos outros, pousados sobre as lajes, enrolados pelas dunas, encostados a tudo o que mais existe. Todos em Cegate coexistem – fazem parte de uma existência só, procuram a única verdade, por isso todos são parte de um, todos um dentro do mesmo espaço, da mesma dádiva de tempo, parte de um todo que pertence ao deserto, que é o deserto dentro do deserto, um oásis submerso dentro de si mesmo.

Estás agora aqui, comigo em Cegate, porque procuras comigo em Cegate o que procuro. Dás-me a tua mão de areia e caminhas devagar ao meu lado sem saber bem por que vieste. Viandantes, trilhamos este caminho seco feito de pedras, areia, pó e suor. A cada passo goteja-nos do corpo sal e o Sol fervilha-nos nas veias, altera-nos as feições, desconhecemo-nos. Contra a morosidade dos gestos, debatemo-nos frente a uma renúncia sedutora – a morte –, e quase morremos renascendo logo, mal nos tange uma brisa, somos abalançados por um bafejo morno, deslizamos estilhaçados pelas faces polidas das pedras, dobrados pelas arestas aguçadas, estacamos por segundos sob sombras diáfanas, recobramos amalgamados entre outras criaturas em Cegate. Não há como abdicar, fugir. Não há como não chegar a Cegate e não há como sair. Uma vez aqui, não há retrocesso. Cedo, todos chegamos – ao nascer da primeira intenção, ao brotar do primeiro desejo. Chegados, ficamos para sempre, porque o que procuramos só existe aqui, e só aqui dentro do caos, do reverso do percetível defrontaremos o esclarecimento. Em Cegate somos todos filhos de Hanuman – todos párias, todos reis, diferentes dentro da semelhança – todos fração da essência da criação, da geometria primária da forma, da linguagem universal que o caminho tece, acrescenta, duplica, aumenta, dilui, extingue, recupera.

Vem, vamos por aqui, por este carreiro estreito, definhado e infinito, para que nunca paremos de andar e o objetivo nos escape, alucinados nos achemos perdidos dentro de labirintos indecifráveis. Vamos sem parar escalar montanhas, montes, desfiladeiros, barrancos, atravessar os lagos mais dilatados e secos, as planícies mais tórridas e inóspitas, rastejar pelas luras arrevesadas da Terra, trepar às edificações mais encasteladas, laboriosas e fantasiosas das miragens de Cegate  – vamos por aqui, vamos por ali, vamos entre, vamos por este caminho afluente de todas as procedências. Vamos sem nunca olhar nos olhos um do outro, porque importante é procurar por si, não procurar cada um por cada qual – cada olhar, cada vislumbre, cada conhecimento, cada descoberta – sabendo que cada um será o todo, a certeza única, a conivência irrefutável e global, o intuito singular num tempo e espaço desigual, patente da mesma forma, autêntico na mesma experiência. Aqui em Cegate somos todos princípio e fim, deuses de causa e consequência, demónios de luz e sombra, turvação do olhar, voo, alma que se distende e aspira. Porém, nem todos sabem onde, como, porquê – porque nem todos sabem que estão em Cegate e que procuram fora de Cegate o que reside aqui.

Em Cegate vês e não sabes que és tu. Durante o dia, como agora em que passas este caminho de areia comigo, que atravessas fortalezas de dunas, podes perceber melhor o que digo. Olha além – estrelas que cintilam dentro das pedras poeirentas. Vê-las? São olhos. Durante a noite, não distinguindo Cegate, porque Cegate estará suspensa no sono, verás o céu coberto de estrelas que brilham sobre a nossa passagem. Perguntar-te-ei o que são e responder-me-ás que são estrelas. Como te atraiçoas, iludes. São olhos. As luzes que tremeluzem dentro das pedras são olhos, desejos varados na minúcia da demanda, esquecidos do móbil fundamental. As luzes que brilham no céu são seres de Cegate chegados ao destino, nós no futuro refletidos nos olhares presentes. Não olhes para mim, não olhes, olha em frente, olha sempre em frente. Faz de conta que não estou aqui e que não me vês, que sou apenas bulício no teu silêncio, sombra na tua luz, uma mão de areia dentro do teu ar. Porque é isso que sou e tu apenas alento em Cegate. Em frente, sem desvios ou sublimações, seremos sempre e apenas presença, aparência, tempo, interregno.

A paisagem é inóspita e o Sol perfura o desígnio, fermenta e fratura o solo, dispõe-no em placas ressequidas e encarquilhadas sob os nossos passos. Caminhamos e o prazer momentâneo do movimento, do avanço, estala e desfaz-se em pó. Não te queixes, não te queixes e prossegue, não olhes e caminha, caminha que o que procuramos está aqui, está além na amofinação de que é feita a paisagem, no fascículo da mutação efémera. Há muita luz? Há? Pois há! Eu sei que há, como sei que luz pode significar obscuridade. Mas não pares por isso, avança. Neste mundo de claridade e esterilidade é quase sempre noite e os oásis são miragens que nos obrigam a atrasos. Vês além aquela torre? Aquele verde? Escutas o ciciar das palmeiras? Os guinchos e os assobios dos macacos? É o centro de Cegate, somos nós. È verdade. Estão todos em alvoroço em Cegate. Todos aqueles que olharam dentro dos olhos dos outros cegaram. Não queres que isso nos aconteça, pois não? Todos esses vivem agora neste deserto de olhos vendados – estão fora de Cegate sem nunca terem saído daqui. Terão de renascer para recomeçar a viagem. Terão de ser novamente, chegar.

Em Cegate, todos se limitam a olhar para longe ou para baixo, para o que afiguram ser o trilho dos outros, porque no meio da multidão são muitos e estão sós, sentem a necessidade de companhia, de procurar acompanhados solidez – têm falta de idealidade. Todos os cegos e não-cegos são mudos, pensam apenas, como eu penso agora e tu sabes o que penso, porque não tenho voz, porque não tenho pele – sou apenas sopro, porque não tenho forma – sou apenas presença, porque sou de Cegate e sou feita de areia, porque és de Cegate e és feito de procura, de quimera.

Prepara-te. Em Cegate não existem rostos – cada um concebe a forma de qualquer presença como lhe aprouver – quase sempre perfeita de sentido, quase sempre de conteúdo irrepreensível. Sorriem quase sempre sem que o saibas, sem preconceitos quase nunca quando o queiras. Se alguma vez te abraçarem – deixa – sentem apenas necessidade disso. Tentam através do toque entender o corpo, através do sentimento adivinhar o espírito dos outros, a alma de Cegate. Porque vivem quase sempre sós, os habitantes de Cegate passam tanto tempo abraçados à ideia que se esquecem que deviam de seguir em frente. Solitários, fazem-no tantas vezes que por vezes esquecem-se de associar um sentimento ao gesto e ficam assim uma infinidade de tempo, distraídos do propósito até doer-lhes a posição. Muitos gostariam de cegar e deixar de ver o movimento dos outros, porque associam essa ação a um sentido que pode não ser real. Imaginam que um movimento brusco designa uma forma brusca. Por este motivo a maioria tenta cuidar muito do movimento para que este seja tão sinuoso e belo como as dunas de Cegate, brilhante como os olhares prisioneiros das pedras de Cegate, esplendoroso como o verde das miragens de Cegate. Porém, quando tudo é demasiado perfeito em Cegate, desconfia-se – pode tratar-se de um engodo. Quando a presença é demasiado preocupada pode não ser natural. Desconfia-se de tudo em Cegate – do belo, do hediondo, do ordinário. Teme-se cada instante porque tudo é simultaneamente luz e delírio, porque o movimento distorce a forma e delineia a ideia ao sonho.

Estamos quase a chegar a Cegate e devemos de caminhar mais depressa. Dás-me a mão? Escutas? – “Hanuman” – Chamam-nos. Vamos aproveitar esta tempestade de areia – erguermo-nos bem alto com o vento, assim, mais, mais, mais alto – agora, enrolados mergulhamos dentro da alma de Cegate. Vem. Fecha os olhos depressa, esquece a alma, esquece-te, visiona apenas as palavras que escrevem este voo, que são verdadeiramente Cegate, que somos simplesmente nós.

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