reminiscência

Rumo – Lourenço Marques. Já estamos todos no carro – mãe, pai, mana e eu -, dentro do Valiant branco, prontos para avançar. A casa está fechada e o carro cheio de malas e embrulhos, uma alcofa. Atiro-me para as traseiras de joelhos. É Natal – vamos passar uns dias a casa da tia. Está calor. As franjas colam-se à testa e fazem-me comichão – sacudo-as e sento-me, fecho a porta, ponho-me de pé, ajoelho-me votada para trás – os joelhos colados à napa a fazer ruídos estranhos se me mexo. Desisto – coloco-me novamente de pé junto à porta, ao vidro corrido e ponho a cabeça e os braços dependurados lá fora. A mãe traz um vestido azul, curto. A mãe é magra e bonita. A mana dorme – é gorducha e tem os olhos verdes, tem caracóis. Espreito para a casa da Tracy e do Goody, enquanto o pai abre o capô e espreita, dá uma eternidade de voltas ao carro e espreita, aninha-se e espreita, abre a bagageira e espreita, pousa um joelho no chão, a mão espalmada sobre o alcatrão e espreita. Ponho a cabeça de fora, os pés descalços em cima do assento, o corpo quase todo de fora – estou agora mais fora que dentro do carro. A Tracy e o irmão saltam na cama dos pais. A janela do quarto tem um vidro grande que deixa ver tudo para dentro. É quase tão grande como o vidro da nossa sala que vem do teto até ao chão. Deixa entrar o sol, ver a chuva, o jardim, a casa da Conchita, os relâmpagos que caem como raízes sobre a floresta, a rua longe por onde passam camiões gigantes carregados de troncos, alguns a arrastar as pontas no chão. Quando chove e não vou lá para fora, ajoelho-me ali junto à vidraça a contá-los, a fazer bonecos de plasticina de todas as cores sobre o parapeito – camiões carregados de toros, bonecos – corpos, cabeças e barrigas, braços e pernas, caras e mãos, bocas, roupas, chapéus e botões. Quando me canso de fazer bonecos faço minhocas e lagartas – quando me canso de fazer minhocas e lagartas, enrolo-lhes os corpos e faço «changalulos» e caracóis. Quando todos os bonecos me cansam, faço árvores e cogumelos. Só depois, quando estou prestes a desistir de brincar com a plasticina, decido misturar todas as cores e fazer bolas de diferentes tamanhos que disponho em fila sobre o parapeito. Então, em jeito de ritual, fatio uma a uma com uma faca rombuda da cozinha. A plasticina por vezes está fria e dura – tenho de erguer os joelhos e carregar na faca com muita força para baixo, com as duas mãos, até conseguir que avance de um lado ao outro. Inspiro, olho lá para fora, só depois, uma a uma, descolo os lados devagar e comtemplo as asas de borboleta que renascem dezenas de vezes, a cada golpe diferentes, até ficarem esbatidas, destorcidas, com as cores mais desbotadas e tristes – transformadas de repente em borboletas noturnas, baças, peludas, engolidas pela massa compacta, cinzenta e inútil –, até desaparecem para sempre transformadas em carraças gordas e maçadoras.

A Tracy e o Goody ainda saltam na cama. É bom saltar naquela cama – quase tão bom como saltar na cama elástica do Holiday Inn aos fins-de-semana. Quase tão bom como rebolar pela rampa do jardim até embater na rede que separa o nosso jardim do da Conchita, quase tão bom como rebolar escarrapachada na câmara-de-ar gigante, bater na rede e cair, subir à árvore mais alta que fica ao fundo do jardim e apanhar besouros, bichos-paus, descolar gotas de resina, mastiga-las e cuspi-las logo a seguir, limpar a língua numa folha qualquer, ao tronco. Quase tão bom como andar no baloiço grande do clube e tocar com as pontas dos pés nos ramos mais altos das árvores de pepinos gigantes.

O pai acabou de ver tudo, de aninhar-se todas as vezes necessárias. Terminado, pontapeou todos os pneus, deu duas sapatadas na chapa e entrou sorridente – sentou-se. Vamos – bateu a porta com força. Desço da janela e sento-me, arranjo-me no assento – cruzo as pernas. Está calor, a pele cola-se e descola-se da napa num ruído pegajoso de caramelo. A mana dorme na alcofa e não sabe nada disto, nem quer saber. Se não estivesse aqui, deitava-me, esticava-me ao comprido. Tento fazê-lo à mesma – os braços enrolados no peito, uma perna dobrada a outra estendida – não dá – levanto-me e sento-me outra vez, volto a espreitar os meus amigos. O carro já está a trabalhar e eles ainda saltam na cama. Os pais não estão em casa. Se estivessem, estaria um jaguar azul-bebé estacionado na rampa. Não estariam a saltar na cama e estariam noutro lugar qualquer a fazer outra brincadeira qualquer. A Tracy tem um cavalo e é loira, o Goody tem uma caixa onde coleciona sapos e também é loiro – são ingleses. Gosto quando abre a caixa e deixa-me passar o dedo pelas cabeças escorregadias dos sapos. Gosto de olhar para os olhos pacientes dos sapos, desinteressados de tudo. Por vezes também apanha sardaniscas – abre a caixa só um bocadinho e eu enfio a mão a tentar apanhar uma – raramente consigo. Às vezes fico com uma ponta de rabo a rabiar na palma da mão, a fazer-me cócegas – rimos – sabemos que cresce outra vez. Brincamos muitas vezes no jardim – no nosso ou no deles que é maior – tem uma árvore gigante que parece que chove, com uma sombra gigante onde cabemos todos, até o cavalo. Se não estivessem a saltar na cama, estariam junto ao riacho a escarafunchar com paus no lodo, a tentar apanhar bichos esquisitos, a fecha-los em caixas, frascos ou latas. Estariam nas traseiras da casa a chatear a empregada, a não deixá-la trabalhar. Se calhar estariam longe a brincar às escondidas no meio do capim seco e alto, a coçar as pernas e a tirar bolinhas e agulhas enfiadas nas dobras das meias. Estariam a apanhar borboletas, gafanhotos, grilos, fedes. Poderiam ainda estar ainda mais longe – no parque de baloiços que fica no fim da rua mas para o outro lado – longe, longe – no sítio onde os jardineiros vão despejar entulho, carrelas de ramos, tufos de erva e raízes, molhos de capim e catos partidos – até onde vamos nós de bicicleta. Gosto quando calha a um jardineiro conhecido ir e eu ir com ele também. Salto para cima da carrela sem perguntar – sei que não se importa e até acha graça – «come» – diz, comigo já escarrapachada sobre as sobras do jardim. Se estamos os três – eu, a Tracy e o irmão – vamos à vez. O jardineiro contabiliza o espaço percorrido para fazermos a troca. Quando algum não quer ceder a vez, ele faz cara de mau, larga as mãos da carrela, põe uma no bolso, olha para cima e assobia até nos decidirmos. Na volta, chateamo-lo tanto que vimos os três apertados em cima da carrela, com ele sobrecarregado e a gotejar, desejoso por chegar a casa e despejar-nos no jardim.

O meu pai, antes de arrancar, enfia um cartucho com músicas do José Cid. O meu pai é fã do José Cid. Sempre que olho para fotografia no cartucho, acho que até se parece com ele, nos óculos e tudo, menos na balalaica – o José Cid veste um casaco de couro.

A Tracy está agora a saltar sozinha – parece uma borboleta -, levanta os braços e baixa, levanta-os e baixa, levanta e baixa, os fios dourados e finos do cabelo levantam mais devagar e baixam. Aceno-lhe com os dois braços mas não me vê.

O carro avança devagar até à vedação de cepos grossos pintados com alcatrão, depois vira à direita e sobe. Gosto do cheiro daquela vedação – madeira e alcatrão -, de encavalitar-me nos troncos e dar cambalhotas, escorregar de barriga para baixo com os braços abertos, as mãos abertas que não conseguem segurar, que deslizam lentas pela madeira, depois muito depressa –  termino de costas sobre a erva. Para lá da vedação, fica o descampado de capim onde se esconde o riacho que conheço bem e que sei de cor onde fica, onde há buracos de cobra, debaixo de cada pedra um escorpião. Para lá do riacho o capim continua – estende-se numa subida longa que vai dar à rua principal – daqui, apenas uma linha escura. Depois de tudo fica a floresta. O carro avança e já não vejo a vedação, o descampado. A mãe olha para trás, para a casa, para o jardim, para as flores vermelhas e cor-de-laranja dos catos que circundam o jardim – já não vê nada. Sento-me para trás, bem encostada. Preparo-me para espreitar as copas das árvores que conheço de cor enquanto tiro cascas de uma ferida no joelho. Vou assim, quieta a olhar as copas das árvores e o céu, até desconhecer-lhes as formas. O carro avança ao ritmo da voz do José Cid abafada no cartucho. Já passamos a igreja, o supermercado, o Holiday Inn, vamos agora atravessar a floresta, pinheiros dos dois lados durante muito tempo até passarmos frente à fábrica de papel onde o pai trabalha, onde fica o dentista. Mas, ainda demora – sei-o porque quando estamos a chegar cheira muito mal e eu tapo sempre o nariz. A floresta é demorada, grande e alinhada, o chão tem pinhas soltas e é fofo porque está coberto de caruma. As pretas, às vezes vão lá para dentro apanhar lagartas dos pinheiros. Abanam com os troncos e elas caem – muitas, grandes, peludas, gordas, a contorcerem-se. Enchem sacas delas que levam depois à cabeça para vender e comer. Já cheira – é agora que vem a fábrica – tapo o nariz. Só quando vir apenas céu é que sei que já estamos fora da floresta e que posso soltar os dedos. Entramos nas serras – menos árvores mais montes e pedras, carreiros, cabras e palhotas, micaias, a seguir planície, ananases, laranjas, cana-de-açúcar – um cheiro intenso a doce, uma labareda transparente que distorce a distância. Depois da fronteira paramos no primeiro mercado de pretos para comprar fruta, algum boneco de pau, uma carteira ou um cesto de corda, pulseiras – lembranças. Cheira a catinga, manga, ananás, abacate, banana, capulanas, palha, graxa e pó. Na Namaacha as árvores são mais espaçadas e baixas, achatadas, secas e baças – raquíticas -, a terra é vermelha. O meu pai estaciona sempre no mesmo sítio. Vai falar com o Sr. Flor que tem uma loja e um melro que fala. Lanchamos qualquer coisa na esplanada – bebo Fanta com a minha mãe que dá leite à mana. Arrancamos quando o Sol já vai mortiço, tudo está afogueado e sonolento. A partir daqui a vegetação muda – há mais verde, mais erva, mais árvores, mais altas, algumas junto à estrada com troncos esbranquiçados que nos acompanham grande parte da viagem. Aos poucos a Lua surge inesperada na paisagem, corre atrás do carro, rodeia-o, segue-nos. O pai tem pressa em chegar e o José Cid já cantou vezes sem conta as mesmas músicas. Tenho uma boia, um balde e pás da praia na bagageira. Vamos ao Bilene. Um dia apanhei um búzio e andei com ele todo o dia dentro de um balde com água. Um dia ferrou-me a garrafa azul na Costa do Sol e chorei. Doeu-me muito e chorei horas sem parar. A tia Janina sentou-se numa bóia e adormeceu, foi levada para longe e um barco teve de a ir salvar – também chorou.

Chegamos – risos e abraços, presentes. O Valiant estacionado nas traseiras do prédio. Há caril de camarão e caldeirada de tubarão. Tenho pena de ter de comer os bichos, especialmente os caranguejos. Depois do jantar a tia corre atrás da prima com uma cruzeta no ar – as duas aos berros já não sei porquê. Vamos ao Luna Parque. O tio Amorim e o pai andam no foguetão – são corajosos. O tio fica tonto e indisposto – vomita o caril todo atrás de uma caravana. O apartamento da tia é pequeno para tanta gente e faz muito calor nos quartos. Eu e o Rui estendemos esteiras de praia na varanda, levamos almofadas e deitamo-nos ali, ao relento, a contemplar as estrelas, a olhar para Lua a flutuar sobre os ramos altos da abacateira do largo. Repetimos até à véspera do Natal.

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