palomar

Há dias assim. Sou uma espécie de Palomar à beira-mar – parada com uma espada desembainhada espetada em mim. Eu sei, não é desta forma que reza a narrativa, mas hoje é assim que me sinto, dramática, porque chove, porque não se avistam planetas, estrelas, a Lua, por outra razão qualquer disparatada – perdi uma agenda de contactos, por exemplo. Faz de conta que acreditas, porque sabes que é uma possibilidade – ando sempre com uma mala demasiado pequena para o essencial, que ainda assim acho demasiado grande. Ideal seria não ter nenhuma, andar com as mãos soltas a balançar, livres como o movimento, sem vizinhança. Faz de conta que acreditas que perdi a agenda, que eu faço de conta que és tu que a tens, que andas a lê-la devagarinho, como se me lesses a mim. Daqui, deste terraço improvisado penso nisto que é o mesmo que pensar em nada. O mar está agitado, as ondas inquietas, uma espada de turmalina que imagino que existe, está afundada, longe do caos, nas profundezas do oceano. Palomar está na praia e é noite, não esperou por mim, nada em direção ao infinito. Estou certa de que vai lá chegar, mais depressa que a observar tartarugas, osgas, uma iguana no terraço, pacientemente atormentada. Hoje estou assim, bicho. São as mesmas coisas no mesmo espaço, as mesmas palavras no mesmo tempo. Tudo é demasiado igual ao que costuma ser, até as frases. Bato  com  as  mãos  nas grades molhadas e passo-as na cara. São dias fotocopiados de outros dias, dias iguais até na roupa que visto – calças de ganga, sempre – camisola, casaco, botas, sempre – botões, poucos – menos fechos, nada de fitas, laços e folhos – nada de brincos, colares, relógio, anéis, ganchos, bandoletes, lenços, chapéus – nada de nada que o mundo já é demasiado preenchido e informação a mais é um tédio. Nestes dias iguais, está tudo igual e eu estou diferente. Ainda não consegui perceber bem se estou a mais ou a menos. Quase sempre acredito que estou a menos, a pensar em tudo o que nos outros está a mais. È um dia a que chamo dia de contemplação. O Sr. Palomar veio visitar-me, tocou à campainha e entrou. Quase sempre estamos juntos para falar de coisas belas, sobre as razões da vida, da natureza e da relação entre os homens. Hoje falamos sobre o trivial, o desumano, o desnecessário, o enfadonho. Talvez por isso tenha ficado menos tempo, nem esperou que lhe fizesse um chá, lhe mostrasse uma coleção de borboletas. Saiu sem despedir-se, bateu com a porta, não apanhou o elevador, desceu as escadas a correr, avançou avenida fora sem olhar para trás, para cima, para o terraço. Consegui acompanha-lo enquanto atravessou o areal, meteu-se mar dentro. Depois ficou escuro. Devia de ter mordido a língua três vezes antes de falar, quatro vezes antes de escrever este texto parvo.

Anúncios