mundo

O pássaro azul não é azul. O pássaro azul é cinzento – é azul dentro da sua vontade. É cinzento mas quer ser azul, por isso entende que esse direito de querer é um direito de ser, e que esse desejo exato molda a realidade naquilo que ele quer. No seu entendimento mindinho de pássaro, tudo o que nasce da verdade só pode ser verdadeiro – eu dou-lhe razão. Quando se olha refletido no fundo de um charco vê-se cinzento, mas sabe que o que vê é apenas um reflexo, e que por ser apenas isso não tem valor real. Real é aquilo que ele sente e pensa, acima de qualquer outro facto. Só ele sabe que é assim, só eu sei. Nenhum outro pássaro – se existir algum para além dele no mundo em que vive -, sabe a efetiva cor de que ele é feito. Só ele sabe a verdade que reside dentro de si próprio. O pássaro azul é azul e especial em tudo o que o compõe, por isso gosto tanto dele – de certa forma até o idolatro por sabe-lo conhecedor e consciente do que é essencial, mesmo entendendo-o despreocupado disso. Ele escolhe e eu decido que é azul a cor que ele vê – azul a cor em que ambos acreditamos. Somos desta forma um do outro a partir do instante em que partilhamos o mesmo mundo – ele sonha, eu crio, ele transforma. O pássaro azul vive rente ao chão, numa floresta repleta de raízes e troncos. Os ramos e as folhas ficam bem lá em cima, no lado suspenso da floresta, onde o seu voo não alcança. O pássaro azul tem asas mas não voa, por isso não sabe para que servem – ninguém o ensinou, não teve mãe, e eu ainda não lhe expliquei como se faz. O seu ninho é feito de raízes entrançadas – uma rede complexa em tons de castanho que parece um novelo de cabelo emaranhado. É claro que o pássaro azul não sabe o que é cabelo. No seu mundo só existe ele e o mundo, não existe o que ele não sabe que existe – eu, gente, cabelo –, noutro mundo fora do seu mundo. Se imaginasse que existe gente com cabelo a viver noutro mundo, a ver para dentro do seu próprio mundo, saberia que eu daqui o vejo e que falo dele, que sei que ele é azul como crê, e que o cinzento é apenas um reflexo que existe dentro dos charcos. Se imaginasse, saberia que estou aqui a desenhar-lhe um mundo e a escrever-lhe um destino, que eu sou o seu deus enquanto decido sobre a sua identidade, o espaço onde vive, o que faz durante o tempo em que penso nele e escrevo sobre ele. Talvez ele não consiga imaginar-me, porque não pode conceber aquilo que não existe. Neste instante em que escrevo, em que tu lês, o pássaro não engendra probabilidades, decide apenas sair do ninho. Penso, e ele emerge de entre o emaranhado de raízes – vejo-o em todo o seu esplendor de ave – o bico alongado, gracioso e dourado, a cabeça redonda e inquieta, os olhos intermitentes como estrelas a deambular no vazio. Num salto, despontam as patas franzinas e cinzentas – pousam livres e leves sobre a terra -, a seguir revela-se a cauda composta por plumas longas e fulgurantes. Ofuscado pela claridade da manhã, sai e está agora à vista do mundo onde vive, onde acabei de concebe-lo sem que saiba que existo. É tão real que quase o toco daqui – mergulho a mão dentro do que penso, o braço bem fundo e chego lá – deslizo as pontas unidas dos dedos pelo seu corpo pequeno, macio e luzidio como seda. Poderia aperta-lo agora dentro da palma da minha mão, sentir o morno do seu corpo, o palpitar alvoroçado do coração, a delicadeza da sua forma moldada em mim – se não arriscasse demais, assustando-o, originando-lhe a fuga. Não me vê, mas persente-me e estremece. È belo e exuberante – exatamente como sei que é – perfeito como ele sonhou. Se não soubesse que é real, diria tratar-se de pura invenção, de um vislumbre escultórico deste mundo daqui. Porém, nada assim completo é fruto da imaginação, da criação humana. Sempre que o pensamento cria já existem as cores, as formas, os sentidos, o sentimento expresso. O reflexo é o pincel e a vontade a tela – só assim existe tudo. Quando eu digo que o pássaro é como é, é porque é. Quem não crê é porventura oriundo de outro universo que não reconheço, incapaz de algum dia entender o meu mundo, conhecer o mundo incomensurável do pássaro azul. Tu que confias e leste o que até agora escrevi, que continuas a ler e a acreditar no que digo, sabes que não minto, que o pássaro azul existe mesmo, como existe o mundo onde vive. Depois de saberes tudo isto, não podes negar que existes e que já fazes parte deste destino também, deste mundo que acabaste de invadir e conhecer. És agora outro prisioneiro do que penso. Nem que quisesses fugir, tentasses, conseguirias. Já sei de ti e agora pertences-me, como me pertence a cor, a forma e o sentido. Moldei-te como minha companhia, dentro daquilo que sou. Agora não prescindo que venhas comigo até onde conseguir levar-te.

É a primeira vez que vejo o pássaro azul fora da escuridão do ninho. Está neste momento parado mas inquieto, ansioso por conhecer o que ainda não existe dentro da sua vontade, porque só agora despertou e vê, acredita. Instintivamente, porque é o que todos os pássaros fazem e não consigo imaginar outra coisa, sacode as asas num espreguiçar de ave e esgravata com as patas finas e contorcidas o solo húmido e fofo. Compassado como um metrómano, balança o corpo com a cauda levantada – remexe o solo, desenterra as raízes húmidas e entrançadas, descola folhas mortas sobrepostas. O pássaro azul não quer saber das folhas, nem tão-pouco repara como estão coladas porque choveu, que a terra está húmida e que possivelmente poderá surgir a qualquer instante uma minhoca do âmago daquele esgravatar nervoso e instintivo. O pássaro azul não pensa – vive -, sou eu quem decide por ele. A minhoca emerge – deixa descobrir uma ínfima parte do corpo e o pássaro vê-a. Esconde-te – falseio. Não se escondeu. Não poderia acontecer de outro jeito. Arrebatado, o pássaro azul prende-a com o bico fino e longo como uma pinça – objeto que desconhece, e no qual ao contrário de mim não pensa. Num movimento brusco sacode a cabeça, a minhoca entalada entre o bico sem conseguir soltar-se. Atira-a inteira para cima e para baixo e acaba por faze-la deslizar para o interior do bico escancarado, branco e molhado. Agora que já ingeriu a minhoca, pode muito bem fazer outra coisa qualquer que ainda não decidi. Enquanto penso e defino, deixo-o ficar assim quieto, parado junto ao tronco grosso da árvore sob cujas raízes tem construído o ninho. É a árvore mais alta do mundo em que vive, a maior, a única com uma raiz em forma de ponte, elevada para fora da terra, rugosa e contorcida em jeito de espiral que dissimula a entrada para o seu refúgio. A rodear a raiz, vários tufos de erva formam um carreiro alinhado que serpenteia e estende-se floresta adentro, até outras paragens desconhecidas, outras árvores igualmente imensas, charcos e vegetação diversa e copiosa, onde existem lagos e se calhar muito, muito mais longe, um oceano. São tudo suposições que ainda não explorei, mas de que gosto, que não sei se quero, se são adequadas ao mundo que estou a criar para o pássaro azul, que vive rente ao chão, que acabou de sair do emaranhado do ninho sob a raiz gigante e encaracolada, que esgravatou a terra e acabou há instantes de engolir uma minhoca. Parado olha agora para cima, para as cúpulas distantes das árvores, para o céu ainda mais longínquo e desconhecido. Talvez exista outro universo lá em cima, onde vivem outros seres, pássaros como ele, ou apenas vazio – nenhum ser e apenas claridade e espaço sobre um interminável tapete de folhas e ramos em movimento. Sempre que contempla essa porção inacessível do mundo, fica agitado e amedrontado – assusta-o a amplitude, a luz – baixa depressa o olhar sobre o solo que circunda o espaço em que vive, que conhece e fá-lo sentir-se seguro. O Sol já mergulhou na floresta, atirou-se a pique do cimo das árvores sobre a terra, todo ele fragmentado em balões reluzentes. O pássaro azul gosta do que vê – todo o chão pintalgado de brilho, os tons escuros da terra, o verde mesclado das plantas, subitamente dilatados e assumidos. Aos saltos, avança em direção a uma dessas manchas – a mais espaçosa e cintilante. Sob o reflexo forte, as penas tremeluzem e o azul acentua-se dentro de outros tons. Destacado sob a bolha luminosa, sacode as asas, estica-as, distende a cauda como um leque, apruma com o bico a penugem. O conforto que sente faz com que resista ao medo e volte a espreitar em direção ao firmamento. Nada sabe sobre o esplendor que habita para lá do mundo que reconhece. Nada sabe sobre a estrela a que chamamos Sol. Eu também não sei se Sol é um nome real. As coisas são o que são, não têm nomes, não precisam deles. O pássaro azul também não sabe esta verdade. Sabe apenas que debaixo da mancha de luz sente o corpo aquecido e que quando olha para o espaço entre as cúpulas distantes, observa e constata uma realidade. Eu decido assim, mas posso decidir de outra forma, refazer tudo o que até agora aconteceu. Posso fazer o pássaro recuar, desfazer-lhe o ninho, desistir que viva. Posso chatear-me e eliminar o Sol deste texto, deste mundo submerso, para que o pássaro azul não se questione mais sobre aquilo que não conhece. Posso inventar outra coisa qualquer, escurecer de uma vez só a existência. Só não o faço porque já gosto dele, já sei de cor a forma e as cores do espaço que habita, a curva da raiz contorcida, a árvore gigantesca, o tronco rugoso que leva o olhar até ao topo. Não posso destruir um mundo onde já existo sem que desista de mim.

A folhagem balança cada vez que olho para o pássaro azul – balança agora. As manchas de luz mudam de lugar e ele saltita com elas. Quando consegue ficar sossegado durante uns segundos, olha para cima, para a luz forte e sem nome – depois olha para mim. Gostaria que os ramos permanecessem calmos durante mais tempo, que eu os conseguisse parar. Pede-me sem saber que sei da sua vontade. Vejo o pedido no brilho dos seus olhos. Infelizmente, não consigo fazer parar o vento dentro desse mundo. Quero falar-te, dizer-te isso mesmo, que também não posso tudo. Pedir-te desculpa pela vida que te dei. Porém sou apenas uma transparência dentro desse mundo, uma transparência igual neste onde existo. Tenho culpa.

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