amante

Tenho um amante feito de tempo. É alguém assim mais ou menos como eu, mais ou menos da mesma estatura e que está sempre comigo – tem tempo. È um amante especial que não é rival de ninguém porque não tira tempo a ninguém e ninguém se preocupa com ele, tão-pouco sabe que ele existe, só eu. Sintetizando, o meu amante existe dentro do meu tempo, dentro do meu corpo, dentro da minha consciência, dentro de mim. Quando morrer o tempo, morrerá comigo, morreremos os dois. Penso que morrerei primeiro – ele nunca me deixará partir sem despedir-se de mim. Penso que morrerei depois – ele nunca deixará que chegue a algum lugar e me ache perdida. O meu amante é o amante dos amantes, perfeito e sem o qual não saberia viver. È a minha alma gémea, aquela que foi determinada pela vida para me fazer companhia. O meu amante faz tudo o que eu faço quando eu faço e como eu faço – é perfeito em atender aos meus desejos sem ser demasiado perfeito, sem ser demasiado banal. Está comigo como as ondas do mar estão para a superfície do oceano, o oxigénio para a vida. Confia em mim como ninguém porque sabe tudo o que eu sou, lê tudo aquilo que eu penso – conhece-me como ninguém e eu a ele – por isso somos os mais fiéis dos amantes, os mais cúmplices dos amigos, os mais unidos dos irmãos. Quando durmo, deita-se comigo, faz-me companhia, acompanha-me no sono, nos sonhos, partilha comigo tudo o que é novo, velho, repisado, desconhecido, essencial. Quase sempre temos longas conversas antes de adormecer – falo-lhe de mim, ele fala-me dele como se falasse de mim. Só depois de um abraço, de um beijo, de um dentro do outro a namorar, juntos a unir letras, a escrever palavras, a crescer frases, textos, romances, até nos esquecermos de nós, que existimos – somos do sonho, emudecidos sem saber quem foi que se silenciou primeiro. O meu amante é tão meticuloso que sabe de cor tudo aquilo de que gosto. Nunca se esquece do dia do meu aniversário nem do dia de aniversário de quem me é mais querido, da minha cor preferida, da minha fruta preferida, do meu lugar preferido, do meu silêncio preferido, se quero fazer qualquer outra coisa para lá do trivial. Conhece-me tão bem, com tanto pormenor, que nem preciso de lhe falar para que me responda logo – sim – é o que geralmente diz. A nossa cumplicidade é tanta que sabemos sempre à-priori o que o outro vai dizer. Estamos sempre presentes um para o outro sem incomodar o mundo, ninguém. Quando não quero conversar, respeita a minha vontade, ainda que tenha alguma coisa importante para dizer. Fica quieto e calado o tempo que for preciso – aguarda – sempre ao meu lado como se ali não estivesse, enquanto eu não penso em nada, medito –, até que sou arrebatada, lembro-me dele e faço-lhe sinal – vem. Sabe que é assim, que só tenho de querer para que esteja instantaneamente comigo, dentro de mim, como uma espécie de segunda alma. O meu amante é perfeito e vai estar comigo até ao fim. Vou falar-lhe mesmo no meu leito de morte, e talvez depois. Acho que vamos viver juntos pela eternidade. A perfeição é coisa que não tem fim, que se estende para lá do compreensível. Nós somos assim – completos. O meu amante muda de feições a cada instante só para me agradar, altera a voz, o penteado, deixa crescer a barba e corta-a, nunca deixa crescer bigode porque sabe que eu não aprecio e não quer desgostar-me. Quase sempre é magro e não é muito alto, tem uma voz grave mas tímida, nunca fala alto, nunca grita, nunca faz caretas, nunca me prega partidas porque sabe que eu não gosto, declama-me poesia, trata bem os animais e respeita a natureza por mais insignificante cada partícula possa parecer. O meu amante tem o olhar dentro de meu olhar. Sempre que o vejo na profundidade do olhar de outra pessoa – acontece – o meu coração estremece. É estranho vê-lo fora de mim, distante. Temo perde-lo, ficar desprovida de alma, identidade. Sem ele não saberia viver, estaria morta antes mesmo de saber que me abandonou. Quando passeamos juntos repara em tudo, comigo, num grão de areia, num rebento, numa folha, numa formiga, numa textura. Por vezes passa a mão pelas coisas dentro da minha mão, mete coisas impensáveis à boca dentro da minha boca, para lhes compreender o sabor. Em certas ocasiões faz maldades – esgaça de um ramo, puxa e esmigalha, folhas verdes entre os dedos só para aspirar o perfume que delas emana. Como efeito deste gesto inopinado, reconheço a alma da natureza que reside para lá das formas e das cores. Também escuta o movimento do ar de encontro às coisas, os ruídos do mundo a palpitar dentro dele, dentro de mim. Por tudo isto o meu amante é como eu – ama o mundo – venera a cor, a forma, o movimento, a música, mas mais ainda o silêncio instintivo da vida. Acho que nunca nos zangamos apesar de sermos amantes há muito tempo – antes mesmo de termos consciência dessa realidade -, penso que desde o dia em que formulei a primeira pergunta dentro de mim, responderam-me – eras tu – fora da atenção e do olhar protetor da minha mãe. Acho que nunca estranhou o aparecimento deste meu amante. As mães sabem tudo, entendem tudo. Ela também tinha um amante dentro dela – vi-a muitas vezes falar sozinha, sorrir longe de qualquer companhia percetível. Tinha um amante que a fazia feliz nas horas tristes, passava-lhe as mãos pelo cabelo, tratava-a melhor do que ninguém. A minha mãe sorria sempre mesmo quando era para chorar. Podia até ser um anjo – esse amante -, ou mais do que um. Para alguém assim – especial, autêntico –, um anjo seria pouco. O meu amante partilha-me também algumas vezes com um anjo só meu – sisudo e inflexível -, quando conversamos sobre temas do foro religioso, questionamo-nos sobre certezas inatingíveis relativas a esferas celestiais, inacessíveis. Algumas vezes estamos juntos os três à conversa durante horas. Entendemo-nos bem, apesar de algumas divergências – o anjo não esclarece tudo e responde muitas vezes com silêncio – é a sua forma de responder ao impossível. Ainda assim não desistimos de falar, mesmo no meio do barulho – opinamos, comentamos, criticamos, rimos e tomamos decisões. Pode estar uma barulheira infernal que a nossa conversa não termina, contínua no silêncio da nossa sala de estar, dentro de mim, os três. È verdade, tenho uma casa inteira dentro de mim, decorada ao pormenor e com tudo o que mais me agrada. Juntos, escolhemos a decoração e mudamos a mobília a cada hora que passa, a cor das cortinas, os quadros na parede, o lugar do piano. Muitas vezes até mudamos de casa num piscar de olhos – ora estamos na montanha, ora numa casa sobre a praia, ora num apartamento bem alto com vista sobre a cidade. Certo dia até construímos uma casa na Lua, de onde ficamos a contemplar a Terra de uma janela onde só cabíamos os três, a acharmo-nos pequeninos, unidos, quase nada. Um dia construímos uma casa num planeta distante, onde tínhamos asas, passávamos o tempo a voar. Penso que o anjo nesse dia veio connosco – aprecia mais estas viagens, longe da esfera humana, onde o incomodam as vulgaridades. Estávamos à espera do autocarro que demorava, quando decidimos ir. Enquanto escrevo este texto o meu amante está aqui mesmo ao lado – corrijo – dentro de mim, e confirma o que digo. O anjo não concorda com tudo – amuou e recolheu-se -, talvez por discordar desta minha decisão de escrever, porque falo nele, humanizo-o. È demasiado sensível e discreto e pretende passar sempre despercebido. Por vezes vejo-me em dificuldades para o encontrar – nunca está em casa. Acho que gostou tanto daquele planeta de que falei que anda sempre por lá, mesmo quando mais dele preciso e o autocarro se atrasa.

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