impulso

Para começar a escrever só preciso da primeira palavra – a única palavra importante dentro da primeira frase. Pode ser uma palavra qualquer – nome de coisa ou lugar, objeto palpável ou intuição difusa, ideia concreta ou incoerente. Pode ser grande ou pequena, triste ou alegre, completa ou disforme, lógica ou absurda, real ou virtual, compreensível ou obscura. Pode ser tudo e nada ao mesmo tempo. Pode ser só uma palavra enganadora que diz o que cada um quer ler – uma espécie de fantasia real dentro da um enquadramento mais profundo -, uma palavra verdadeira que mente e que se esconde dentro de outra palavra. Não interessa muito a matéria da palavra ou o volume. Importante é que exista – ainda que dissimulada -, que alcance e mova quem lê, quem cria, modifica e transforma. Pode ser o nome de um animal, de uma pessoa, de uma árvore, de uma pedra, de um sentimento, de um sentido. Pode até ser nada essa palavra, e nada o seu significado. Há muito para dizer sobre esta palavra – nada -, de repente tudo. Começar por nada é começar por alguma coisa, ter passagem aberta para o infinito das palavras. Nada é a palavra que está antes da palavra, antes da ideia, antes da vontade – no princípio de tudo. A palavra pode ser simplesmente uma palavra submersa, escrita no pensamento – um parágrafo, um travessão, uma vírgula. Não se vê, mas está lá, é invisível porém reconhecida por todos e tão sentida e demorada como qualquer outra mais vestida e encorpada. A palavra pode descansar no silêncio antes da palavra, na ideia onde reside a vontade de escolher e onde habita o impulso. Difícil é descobrir o caminho que leva até à primeira palavra, ao primeiro espaço, ao primeiro silêncio. Difícil é encontrar a palavra com o volume certo para aquilo que queremos dizer e que ainda não sabemos bem o quanto ocupa. È articular quase no escuro o sentido que existe apenas no campo consciente da nossa vontade e que nem nós sabemos ainda o que é. Muitas vezes é a palavra que nos encontra. Quando acontece, sabemos que é essa a palavra porque a palavra é mais astuta e fidedigna que qualquer um de nós. Ninguém mais que ela própria sabe o que é, como é, o que significa, o que quer dizer. Se não aceitamos a palavra que nos procura é porque não compreendemos o seu verdadeiro significado, é porque ela existe e nós não. Ela é antes de nós, e nós apenas o que ela transforma, mesmo quando pensamos daí o contrário. Para encontrar a palavra certa, a frase perfeita, o silêncio genuíno, valho-me dos sentidos – revejo o que vejo, perscruto o que ouço, experimento o que toco, fragmento o que penso. O impulso pode despoletar de qualquer estímulo da consciência, do cerne da memória – de dentro ou de fora de uma cor, de uma forma, de um ruído, da nostalgia em si. Para encontra-lo, faço uso de distintos estratagemas – escolho e espezinho, agarro e largo, pauso e recomeço. Descompassadamente, tento a palavra que aparece e reaparece entre fintas. Por vezes até fecho os olhos para encurrala-la no breu, mas perco-a sempre – ela acende a luz e mostra-me uma cara desconhecida. Finge, eu sei. Eu finjo que não a reconheço disfarçada, tento decorar-lhe a forma, tão depressa que ela desaparece antes que a memorize. Ela é astuta, muito mais rápida do que eu – tem a velocidade do pensamento que é a mais veloz de todas as palavras, não fosse ela a primeira da primeira frase, a raiz de onde desponta todo o resto. Depois dela, o que se segue é apenas residual, espólio da primeira ideia. A primeira palavra é essencial e deve de ser a mais completa e a mais próxima da conceção, para que seja transcendente o que dela ocorre. Para que assim aconteça, revejo a cada instante cada ideia, cada reflexo, cada impulso – viro as palavras do avesso, do antónimo ao sinónimo, do verbo ao infinito se for preciso. Faço uma busca aleatória, cruzada, oblíqua, quadriculada. Por vezes até procuro onde sei que não está – nunca se sabe o que vai na ideia da própria ideia. Não posso deixar de lado qualquer hipótese por mais inverosímil me pareça. De repente vejo-a e tento agarrá-la, decora-la depressa para que não se evada. Se tiver à mão uma caneta, prendo-a logo ao papel e já é minha. Muitas vezes ela aparece quando não tenho papel, ou caneta e perco-a. Outras, improviso – rascunho-a no canto livre de um panfleto, no verso de uma fatura ou talão. Tento memorizá-la repetindo-a vezes sem conta até baralhar-lhe a forma e o feitio, até deixar de parecer-me a mesma, o que era no início – adultero-a. De tanto pensar nela, repeti-la, perde o sentido, a própria sonoridade e deixa de ser. Contrariada, a palavra usa de camuflagem. Muitas vezes aparece durante o sono, ou quando estou quase a acordar. Prolongo o momento repetindo a sensação, parecendo-me o achado inigualável, perfeito, sublime, ainda que sob o torpor do sono. Delicio-me até que desperto e as cores se esbatem, a palavra deixa de parecer a mesma – descorada, disforme, desfeita, enigmática. Sonho. Na realidade, a palavra que me parecia tão verdadeira, não passou de um desejo, de um vislumbre. As palavras andam sempre a brincar comigo, umas com as outras. È um jogo da apanhadinha que nunca mais termina. A primeira palavra, a que pretendo, que tem dentro dela o infinito de palavras que procuro, vive rodeada de sentidos, nunca está quieta ou sozinha e protege-se do destino que imagina eu lhe quero dar. Quando a minha vontade é forte e não pode esperar, agarro qualquer palavra e faço-a minha, ainda que se entregue amuada e ronceira. Convenço-me de que serve, convenço-a de que valho, obrigo-a a ficar, até me desiludir com ela, ela comigo, com todas as amigas contrariadas de que se faz acompanhar. È uma palavra sem rosto, que tem culpa mas não tem causa, não tem nada de essencial para dizer, pelo menos àquela hora sob aquela circunstância, sob o meu domínio. O que escrevo e que começa com ela, termina antes de principiar – não existe para lá da minha carência acelerada. Risco-a e rasgo-a com raiva, com as palavras todas que tem dentro – um desperdício de promessas. Felizmente as palavras são intermináveis, ao contrário das minhas ideias, de mim. Renascem de dentro do próprio vazio. Morrem, renascendo. A primeira palavra é a mais pura, surge quando menos se espera. Não a procuro e ela vem – ela é que me escolhe – acerca-me da televisão, de um livro, de uma imagem, de uma lembrança, de um perfume, de um desejo, de dentro de outra palavra. Não a procuro e ela vem porque quer entregar-se de livre e espontânea vontade, deixar-se tocar, retocar, compor. Reconheço-a logo pela proximidade, pela confiança que demonstra. Prendo-a. Ela não se opõe. Entrega-se e deixa-se ficar quieta dentro da minha memória, até que eu encontre a folha de papel mais branco, a esferográfica de tinta mais preta, deita-la com todo o cuidado sobre o espaço desabitado. Sinto um alívio. A palavra espreguiça-se, estende-se e começa a falar num impulso que não para, a contar-me tudo o que sabe e eu ainda não sei. Tenho pressa, avidez, mas não consigo acompanha-la. É rápida demais. Perco-me pelo caminho.

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