acordeão

Por culpa de um acordeão eu sou e não sou. Um velho acordeão Hohner, que guardo desamparado a um canto, disfarçado entre o pó, resmas de manuais, solfejo e pautas amarelecidas, lembranças do passado, memórias de um futuro que passou sem acontecer. Por culpa dele, de quem o levou um dia daqui para outro continente – quinze dias talvez, de barco, abafado no breu dentro de uma mala preta de cartão, grossa e dura, opaca -, eu sou e não sou, eu fiz e não fiz – insegura, frágil, subtil. Aconteceu tudo tão ao de leve, que até parece que não falo de mim, mas de alguém que reconheço, parecida comigo, com aquilo que vivi, com o que penso que fui, com o que imagino que ainda sou. Incapaz de arranjar as palavras certas para explicar todo este efeito, defeito ou artimanha do destino, justificar com causa e indubitável detalhe esta minha relação com o Hohner, opto por culpa-lo de tudo e pronto. Defendo-me com naturalidade do que não posso fugir, do que ainda não compreendo. Apunhalo-o pelas costas achando-se já ele morto, incapaz de lutar, vencer, contestar o que digo, mesmo sabendo que minto, exagero e invento. Culpo o Hohner e não o culpo só – culpo também quem o extirpou da terra, o sequestrou às origens, corajoso e ousado o levou à força para longe como um pedacinho de terra, de património, de tradição e saudade, sem sequer perguntar, saber sequer se queria ir, cioso, contudo ignorante da desventura dessa união forçada. Foi. Culpo os dois por terem ido, por tudo o que herdei entranhado nas teclas, entre as dobras coladas do fole, as folgas dos acordes, as palhetas desafinadas, quando era ainda criança, quando era ainda de tudo e todos uma probabilidade. São todos culpados, mesmo quando e ainda sem mim – o Hohner por existir, a música por tocar, o homem que o levou por saber de cor umas modas lá da terra e ter querido leva-las com ele, por ter nascido, alguém o ter empurrado de barco – vai – e ele ter ido, de acordeão ao ombro, de barco. Foi. Chegou a outro continente, mais precisamente a Moçambique, Lourenço Marques, de onde nunca mais voltou. Exagero, minto. Talvez tenha regressado algumas vezes arrebatado pela saudade, agarrado ao Hohner, de lugares insondados, de entre rostos com o mesmo nome, donos da mesma sede, ávidos do mesmo aconchego, ansiosos por sentirem a distância subitamente encurtada pela música. Vamos, toca. Com um sorriso acalorado no rosto, agachou-se logo, soltou os fechos à mala, agarrou nas correias, atirou com paixão e desespero o Hohner de encontro ao peito. Toca. Aguardou só um segundo para olhar em redor. Toca. Outro apenas para deslizar os olhos sobre cada rosto. Toca. Só depois baixou o que viu e começou, com doçura e reverência a resvalar os dedos sobre a memória, até fazer escutar-se a voz da terra, desinibida e doce, compassada. A música tocou bem alto, mas reinou o silêncio dentro das mentes dos homens ao compasso das memórias. Era um sonho, mas não sabiam ainda que era, nem eu sei agora. Tocou. Tocou até fazer chegar Portugal a todos, conquistar África no olhar de uma negra, esquecer a terra, algumas das modas, as raízes portuguesas e deixar-se ficar, morrer. Morreu. Morreu por culpa do Hohner e de quem o empurrou daqui para fora – vai – quinze dias de barco, de enjoo e quimera em direção ao infinito, a África, comigo já retalhada dentro da mala portuguesa, comigo já do lado de lá à espera de mim, leve como a esperança, passageira como a espuma que rodeou o navio na viagem. Foi. Morreu e eu ainda vivo. Ainda viajo, talvez para mais longe ainda, sem barco e sem espuma, sem asas. Em cada vez que me lembro e sinto saudades, agacho-me, agarro-o do pó e abraço-me a ele. Hohner – colo-o ao peito, sinto-lhe o corpo, encosto-lhe a face. Ele começa sem mim, primeiro arrastado, engasgado, tosco, desajeitado – eu envergonhada -, depois mais solto, leve, até o fole respirar nos tempos certos, os dedos não falharem as teclas, eu entregar-me com alma. Sonho. Sinto neste abraço talvez o que sentiu um dia o homem quando ia no barco, quando tocou em alto mar, mais tarde num piquenique em terras africanas, no clube português, entre as dunas da praia quando amou quem o procurava – Portugal em África. Abraço os dois na mesma música e não consigo amar. Acho que de cada vez que estou com o Hohner mais me entristeço e me afasto dele. Os abraços são cada vez mais espaçados, cada vez mais frouxos, a música cada vez mais abafada e triste, sufocada e repetida. O homem sentia saudades da terra, eu sinto saudades da terra dele e da minha. Tornou-se tão grande a distância, tão intrincado o caminho que me perdi. Tenho mais partituras e menos tempo, mais motivos e menos glórias, mais instrumento e menos música. Hohner – chamo-o -, e ele vem, mas já desagradado. Acho que deixou de me amar, do meu reportório repetido, da minha seleção musical cheia de estrangeirismos, inseguranças. Sente saudades do primeiro dono, da música de folclore, do Portugal que então residia no coração. Acho que não gosta da mistura dos meus sentimentos repartidos e que não perdoa traições. Agora, por culpa de todos, do meu pai em Lourenço Marques num domingo à tarde, de um leilão na Pinheiro Chagas, de dois mil reis no bolso do meu tio, de um acordeão abandonado, órfão, eu sou e não sou, eu fui e não fui. Por culpa de um domingo à tarde, em que o meu pai chegou a casa, à Rua do Sol e disse: – Olha – e olhamos todos, eu sem saber bem o que era -, um acordeão, eu não sou. Ninguém sabia tocar mas sorrimos todos. Um instrumento musical é sempre a aconchego para os olhos. Não resisti e pus-lhe a mão. O instrumento afeiçoou-se a mim – pequenina, mas que havia de crescer, o meu pai forçar-me a casar com ele. Aconteceu. Abracei-o tanto, tantas horas seguidas, que me apaixonei, mesmo sabendo que estamos agora separados por pó e memórias. Quando sinto saudades e me acho só, ainda reconsidero, tomo-o da caixa, levanto-o pelas correias, enlaço-me nele, aperto-o com força de encontro ao peito, sacudo-lhe as teclas, descolo-lhe o fole. Porém, já nada é igual, já não somos os mesmos. Revolta-me a indiferença com que agora me sinto, com que ele me sente. Acho que ainda não perdoou o abandono do primeiro dono. Por causa deste sentimento triste, talvez nunca se tenha abraçado a mim com alma, eu correspondido sem ressentimento. Sonhei. Agora, quando o abraço nada de especial acontece – nem Portugal, nem África, nem eu. A música nasce sozinha de um abraço não correspondido. Imagino uma viagem de barco – o Hohner abraçado por outros braços, a respirar apaixonado o fôlego de outra alma deitada sobre as dunas.

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