ocorrência

Cruzei-me um dia com José Saramago no parque de estacionamento do IPO do Porto. Vi-o. Seguia sozinho, ligeiro, talvez apenas acompanhado pelos motivos da hora, com o pensamento ausente dos livros, das escritas, das leituras, dos leitores, mais debruçado sobre ele mesmo, a alma, temas triviais e incontornáveis como a doença, a vida e a morte. Eu, acabava de visitar alguém doente, ou ainda ia, já não me lembro bem o quê, como ou quem – talvez alguém que já tenha morrido, como já morreu o ser humano que José Saramago foi, ele mesmo, despido do mundo, da obra. Lembro-me muito pouco de tudo o que me levou até ao IPO naquele dia, da roupa que levava vestida, se era de manhã ou de tarde, se já tinha almoçado. Desse dia, lembro-me apenas de que não chovia e de que ia sozinha, que era outono, a cor e a textura do blusão de José Saramago – castanho claro, de couro, espelhado como o brilho das folhas nas árvores. De tudo o resto que envolveu esse dia, lembro-me unicamente de ter-me cruzado com ele. Seguia abstraído, eu distraída – passou por mim e eu por ele sem que nos reconhecêssemos – ele o escritor, eu a leitora. Não sei se alguma vez se questionou sobre os segundos breves que aconteceram – provavelmente não, nada ficou lembrado nele sobre mim nesse dia, nem a cor do casaco que eu levava, do qual nem eu mesma me recordo da cor ou do feitio. Agora, sempre que penso nisto, no que aconteceu e como aconteceu, já não sei bem o que foi nem porquê – que momento foi aquele e de que me valeu vivê-lo, quem era o homem com quem me cruzei, quem fui então, quem sou agora. Quero acreditar que era realmente José Saramago e que o encontro não se deu apenas por um calhar, por culpa da minha estupidez, de um temor passageiro e desnecessário. Só poderia ter sido ele – ainda que resida a dúvida -, ele presente, real e próximo, o formato do seu corpo, as rugas desenhadas no rosto, o olhar tímido e fugaz, o casaco de couro, os passos firmes e lestos em direção a um lugar, a uma intenção, ao carro. Eu estava de metro. Passei apenas no parque de estacionamento porque estava no meu caminho. Foi então que o vi e apeteceu-me avançar, aproximar-me, aborda-lo – Olá, sou eu, uma fiel leitora dos seus livros! – mas nada, não o fiz, hesitei uns segundos e o momento passou. O futuro galgou o presente e aterrou de chofre no passado. Arrependida por falhar, no mesmo instante parei para olhar para trás – já tarde demais. Burra! Interessou-me seguir-lhe o rasto, remediar, descobrir o carro – depressa -, recuperar os sentidos, os segundos perdidos – correr, bater com força as palmas espalmadas das mãos sobre a chapa lisa do automóvel, faze-lo perceber a minha necessidade, o meu arrependimento – Desculpe! Peço uns segundos apenas! Por favor! Sou uma leitora sua! Não o demoro… juro! Já devia de estar habituado áquilo, farto daquelas abordagens deslocadas do espaço próprio, do tempo certo. Saberia como se desenvencilhar se quisesse. Eu levava um livro e tudo – Ensaio sobre a Lucidez. Não foi preciso, não teve de se aborrecer porque nada aconteceu. Percebi que tinha perdido uma oportunidade que nunca se viria a repetir. Apercebi-me de que não tinha visto o carro, por isso não tinha memorizado a marca, sequer a cor – detalhe que raramente falha. Não tinha como procurar. Desisti. Nunca desejei tanto dar importância aos pormenores. Ainda hoje não fixo as marcas dos carros – apenas lhes vejo as cores, as formas – mais hostis ou mais harmoniosas -, as luzes ligadas por esquecimento, as amolgadelas, a travagens bruscas, as buzinadelas. Pergunto-me se esta falta se deve a eu ser mulher, reparar mais nas marcas dos produtos alimentares, nos preços, nas promoções, nas roupas, nos penteados, nas horas dos filhos. Se fosse homem, varão, talvez tivesse avançado logo nos primeiros segundos, corrido nos segundos seguintes por saber de cor a marca do carro conduzido por José Saramago, a matrícula até, ainda que não lhe soubesse a cor. Talvez o tivesse feito sendo homem e talvez não – por orgulho, ser homem e homem, homem a chamar por homem. Talvez sendo homem me acanhasse também, sentindo aqueles segundos breves demais, aquela atitude demasiado lamecha, insegurança nas palavras por estar mais habituado a libertar-me em grupo, em esplanadas, a discutir notícias do jornal – política, mulheres e bola. Parado, homem, talvez Saramago me visse, aborrecido por achar-me ali especado no seu caminho, à sua frente sem palavras, sem motivo. Ignorar-me-ia então, para lembrar-se de mim mais tarde, não pelo conteúdo da conversa, mas pelo tempo perdido com o meu silêncio, pela ocorrência em si – quando estivesse disposto a recordar aquele dia, o que foi fazer ao IPO, estabelecer comparações de espécie, forma e conteúdo e escrever. Foi melhor assim, ter acontecido como aconteceu – não acontecendo – ser eu mulher e ter-se passado tudo como se passou, daquela forma no parque de estacionamento do IPO – ele não me ter visto, mas eu ter estado lá. Ainda hoje penso naqueles segundos breves, no que poderiam ter sido, no que poderia ter dito, no que poderíamos ter falado, feito. Há segundos em que devemos de parar sob pena de não viver, o tempo passar enrolado nele mesmo, sobre nós fora dele, incapazes de respirar o mesmo ar, viver a mesma circunstância. Por culpa desses segundos que não vivi, não me desculpo hoje como não me desculpei então. Procuro ainda responder-me, ainda que de pouco me valha saber, despenda para pensar em tal outros segundos preciosos, como agora, em que penso e escrevo, querendo acreditar que não perco tudo, que ganho alguma coisa, algum tempo longe da máquina de lavar roupa, da cozinha, dos tachos, dos talheres, dos pratos, do ferro estúpido, do estendal, da hora de preparar as refeições. Nunca mais inventam umas pastilhas de mastigar para encher as barrigas. Teria mais tempo para dizer muito mais sobre isto, escrever um livro sobre o que se passou, perceber e dar a entender a importância da insignificância que exponho aqui. Poderiam ter corrido diferentes aqueles segundos perdidos, se eu tivesse avançado, contrariado o protocolo com sinceridade e sem medo, usado as palavras certas ao dirigir-lhe a palavra, falado-lhe na cadeira, na máquina voadora, nos bonecos de barro, no nome de todos os cães, nas lágrimas, na cegueira, na gadanha. Se Saramago tivesse lido dentro dos meus olhos a admiração, a afetação que me causam as suas palavras, quem sabe se aqueles segundos se transformariam em horas, dias, uma vida à volta de mais palavras, mais significados, histórias. Agora, que passaram aqueles benditos segundos, muitos mais sobre esses, não voltarei, nem José Saramago, àquele mesmo parque de estacionamento. Encontrar-nos-emos dentro dos livros longe de um olhar noutro olhar. Se nunca tivesse lido as suas histórias, viajasse por dentro das suas palavras, talvez aquele dia no parque tivesse acontecido de outra forma – eu avançado ligeira, com os passos decididos e seguros, sem protocolos e medos. Perguntaria as horas, quiçá outra banalidade, e, quem sabe se as nossas mãos não se trocariam num cumprimento básico e banal, os nossos olhares num vislumbre instantâneo e frívolo. Aconteceria tudo de forma diferente, aconteceria mais, porém muito menos de tudo. Nunca o escritor abordaria primeiro o leitor como acontece nos livros – sem protocolo, necessidade de um aperto de mão, um olhar -, onde o espaço e o tempo se moldam a cada procura, repletos de parques de estacionamento e ocorrências.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s