terceiro andar

A minha irmã do meio caiu do terceiro andar. Eu estava deitada, a dormir, a passar o tempo fechada, longe do mundo, das preocupações, das inseguranças, longe dela a olhar o mar, a tatear no horizonte a ausência da nossa mãe relembrada num velho poema sobre a morte, noutro acabado de escrever já emaranhado numa folha desperdiçada. Escreveu, escreveu, pensou e leu, pensou e não pensou e caiu. Caíste? Caiu mesmo. Caiu da varanda do terceiro andar junto à praia, ao mar tão perfeito, ao céu tão perfeito, a tudo tão equilibrado e perfeito. Correu até à varanda que já conhecia, já sabia de cor – as cores, a forma, a memória de outro tempo no mesmo lugar -, espreitou e caiu. Quando a nossa mãe morreu também chovia, lembro-me bem. Chovia muito, uma chuva miudinha e persistente. Choveu a semana toda, na anterior, na que se seguiu. Fui à Santa Rita a pé porque a mãe acreditava, porque eu quis, porque a mãe não podia, senão teria ido comigo também, as duas, por ela. Ia sempre com todos, por todos e para todos. Acendia velas à Nossa Senhora de Fátima. Fui. Talvez tivesse ido apenas por mim, por egoísmo, porque queria ter a mãe para sempre. Não interessa. Nesses momentos nada importa – o que se acredita, o que se pensa, o que pensam os outros. O mundo fica vazio até de nós. Fui. Todos ficaram mais descansados porque fui, mesmo os que desconfiaram. Há sempre esperança quando alguém acredita por nós, acima as nossas dúvidas. Fui sem pensar nisso. Foi há quatro anos, em janeiro, mas parece-me ter sido há quatro dias, o caminho, a chuva, a prece repetida vezes sem fim, ao compasso dos passos – salva a minha mãe, salva a minha mãe, salva-a -, até lá chegar, acender velas, pousar uma flor sob uns pés de gesso desgastados, assistir à missa apenas a escutar-me a mim própria. Era uma flor branca em forma de sino que rasguei de uma árvore do jardim da mãe. Foi a mãe que trouxe essa planta de África, como trouxe muitas outras, com todas as boas e más memórias. Colocou África no quintal, no jardim, dentro de casa. Africa que já vinha dentro do coração. Ofereci um sino branco à santa, delicado e perfumado a outro continente. Prometi-lhe mundos e fundos e pedi mil perdões por tudo, mesmo pelas insignificâncias. Salva-a! Não salvou e a nossa mãe morreu. Não fiquei zangada com a santa, fiquei apenas arreliada e mais amargurada com a vida, com o amor. Porque a mãe morreu e morremos todos a parte que ela ocupava em nós. Desde então, ficou-se um ter e não ter – a mãe que morreu e a mãe que ficou. Ficou mais silêncio. Pensamos mais nela agora depois da falta que nos faz. Penso que foi nesse dia, que tu irmã, foste para a tal varanda do terceiro andar. Um dia escuro como a noite em que apenas se vislumbra a morte e a dor. Um dia de tormenta em que nunca se deve espreitar de uma varanda. És teimosa e foste, desafiar a vida e a morte em simultâneo, sabendo que não se entendem, que não dão respostas certas a ninguém, abominam contestações – muito mais vindas de uma varanda – entre duas condições tão certas, duas fragilidades tão evidentes. Provocaste-os então e voltaste-os a provocar agora, sob o mesmo temporal, sobre a mesma varanda do terceiro andar, estando tu mais desagasalhada e infeliz, eles mais aguilhoados e provocadores. Perguntaste, não te responderam. Insultaste, não te esbofetearam. Mediste forças e permaneceram quietos e mudos – serenos e desinteressados. Não toleraste a fleuma e caíste. Caíste? Caíste e tudo continuou impávido dentro da tempestade – irrepreensível para lá da varanda -, dentro das mesmas respostas dissimuladas. O mundo em paz diante o teu corpo retorcido na dor sobre erva fofa e verde. Não quero que voltes lá, à varanda em dias assim. Não vale a pena. Promete-me. Promete-nos. As respostas que procuras não estão percetíveis – estão emaranhadas dentro de ti, na razão onde nascem todas as perguntas, nas palavras que te levam até lá. Nunca vais encontrar respostas nessa varanda e em nenhuma outra igual. Agora, por causa desses dias na varanda, nunca mais vai parar de chover, nunca mais nos vamos esquecer da vertigem. O céu vai estar para sempre mais ou menos enevoado e a relva do jardim para sempre desnivelada e daninha. A mãe está zangada contigo, muito zangada mesmo – sei que está. Não devias de ter feito isso! – Diz com o seu amor incondicional, já a perdoar-te a fragilidade, a teimosia, a revolta. Porque culpada é a vida, a chuva, o amor, a falta que este nos faz, ela própria por ter partido, não estar na varanda ao teu lado para repreender-te, segurar-te. Não faças isso! – Diz triste e culpada. Uma mãe assume sempre as culpas do filho – não precisa de fazer perguntas, colher respostas. Caíste mana, tu, a mais forte, a mais decidida, a do meio, a mais resistente, a mais independente – da varanda do terceiro andar apenas porque choveu, porque pensaste no amor, no odio, nas injustiças, no esforço descompensado. Caíste porque alguém construiu a varanda, a desenhou, cresceu para a projetar, nasceu do amor. Se nada disso tivesse acontecido talvez tu não estivesses lá a repetires-te, a mãe a repetir-se em ti, a varanda dentro da mesma varanda a repetir-se, o poema velho, o novo, todos os outros a gritarem e a repetirem-se, o mundo vazio a repetir-se, a alienação a repetir-se, a erva ao fundo a única a parecer diferente – um oceano calmo, embalado, morno, doce e sedutor. Tudo a repetir-se menos o verde, o adiamento. Até África a repetir-se, o passado, nós, a nossa mãe especial a repetir-se – boa e verdadeira -, tão culpada quanto a varanda, a chuva, o poema, a memória, Deus por apregoar e não socorrer o amor. Agora, depois disto e por culpa de todos, morreu mais um pedacinho da mãe, cresceu mais um bocadinho de ti, de dor e medo. Os teus olhos verdes ficaram subitamente mais brilhantes e a tua presença mais necessária. Realçou-se mais um dia no calendário – 2 de novembro, com hora e tudo – 06:00h. Hoje, chove e tens as mesmas perguntas. No oitavo andar não há varanda. Deitada, escutas e vês a chuva fustigar os vidros para lá das vidraças pela mesma razão de sempre – é inverno e chove. Imóvel, com o corpo massacrado pela queda, tens agora tempo para reformular as perguntas, descobrir as tuas próprias respostas, escrever poemas no teto mais branco, com os teus olhos verdes. Gostamos de ti, agora ainda mais, por causa de tudo – da vida, da morte, do amor e do medo -, dos teus olhos  mais verdes, ainda mais lúcidos.

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